Cardus Edição 76, 15-03-2020

Ter uma horta

Nunca fui um aficionado da agricultura, mas dizem-me que o ato de cavar, plantar, regar e ver a planta nascer e crescer, é extremamente saudável e agradável (o cavar mais saudável que agradável). Não duvido, penso até que deve ser uma boa atividade para o envelhecimento ativo, um tema muito atual que envolve gente daquela faixa etária que é a que mais cresce em Portugal.

Nos meus tempos de África sempre que se mudava de lugar (o que acontecia quase todos os anos no meu ambiente familiar) a primeira coisa que se fazia era arranjar um pedaço de terreno para se fazer a horta. Nem sempre era fácil, porque a necessidade de haver água por perto, levava a que a horta muitas vezes ficasse a uma distância apreciável da casa. Terreno achado e autorizado era só lançar sementes à terra e logo começavam a aparecer grelos, alfaces, tomates, batatas, e tudo aquilo que se pode tirar da terra, assim se semeie. Adubo era coisa desconhecida (pelo menos da terra), usava-se o estrume que era produzido pela criação. Esta compunha-se, principalmente, de galinhas e coelhos (em alguns casos com perus e patos à mistura), cujas proteínas em tempo oportuno caiam no estômago de quem os tratava e alimentava. Coelhos criavam-se em gaiolas, coube-me muita vez a tarefa de ir buscar “comida para os coelhos” o que presumia alguma ciência porque nem todas as plantas do mato serviam. As galinhas cresciam em liberdade, mas à noite recolhiam à capoeira, com a porta devidamente trancada, porque não eram só os criadores que precisavam de proteínas para viver, havia outros animais com a mesma necessidade. As capoeiras evoluíram, nos últimos tempos eram de tijolo e telha, algumas eram já pequenas divisões de linhas interiores mais ou menos direitas. O sonho dum futuro engenheiro era ter uma oficina, pensou um dia transformar uma capoeira numa oficina, foi-lhe concedida autorização para tal, mas no modo de partilha, capoeira à noite e oficina durante o dia. A partilha não correu bem, as ferramentas devidamente arrumadas e penduradas em prateleiras e painéis de parede, foram retiradas uns tempos depois, as galinhas vingavam-se do novo inquilino de dia, qualquer necessidade ocasional líquida ou mais sólida era sempre feita em cima das ferramentas.

As pessoas gostam em geral de ter coisas. Não fujo à regra, para além de ter finalmente a almejada oficina, tenho também, por exemplo, uma grande mota. Ter uma casa é também muito importante, tão ou mais importante ainda (para aqueles que Deus pôs neste pequeno retângulo) é ter um carro. Os jovens gostam de dizer que têm uma banda, todos gostamos de ter qualquer coisa. Na outra ponta do ter está o ter nada, o que não é nenhum estigma de infelicidade, também se vive bem sem ter nada, os homens do capital dizem-me que os melhores investimentos são aqueles em que se utiliza o que não é nosso, seja ciência, dinheiro, espaços, pessoas ou outro qualquer bem valioso.

Ter uma horta é também o desejo de muita gente. E hoje parece-me mais fácil do que antigamente. A foto desta crónica e a que lhe deu origem é de um parque hortícola que existe para os lados de Carnide, penso que é um projeto da câmara. Agora já não é preciso andar à procura de terreno, nem de água para regar, a câmara dá o terreno e a água, para regar basta ir com o balde à torneira, ou implantar um sistema de rega automática se houver aquela coisa que também é bom ter, que é dinheiro. A parte do cavar não é muito interessante, o bom é o que vem a seguir, deitar as sementes à terra, juntar adubo natural (dizem-me que bosta de cavalo é o melhor), arrancar periodicamente as ervas daninhas, ver as plantas crescer, ceifar-lhes a vida na altura em que elas estão no seu melhor e distribuí-las pela família ávida de produtos naturais, ecológicos e biológicos, que é o mote alimentar e comercial do momento. No verão até se pode dormir no sossego interior da cabana, sem o ruído do elevador e do som da televisão do fogo do lado.

Ter uma horta nesta fase pode ter, contudo, alguma perturbação. Como me dizem que vêm aí tempos de crise, a horta pode passar a ser um bem muito disputado. E tal como houve recentemente uma grande corrida aos supermercados não me admira que na segunda fase do pânico se passe à corrida às hortas. E, então, pronto, lá se vai o sossego, o cantinho a ser invadido por hordas de gente armadas de tudo para obterem uma.