Cardus Edição 75, 01-03-2020

Construção do Mundo

Estavam Deus e seu adjunto Pedro concentrados no processo da criação do mundo. Tinham construído um modelo, uma bola, e nele já tinham definido as zonas onde ficariam os oceanos, o deserto e os gelos. Também já tinham dividido o mundo em partes, umas maiores outras menores, que no futuro se iriam chamar países. Era chegada a altura de começar a distribuir natureza pela terra dividida. Deus apontou então para um pequeno espaço junto a um grande mar e disse:

Pedro, aqui neste cantinho, vamos colocar belas praias de areia branca. Pedro concordou imediatamente, fazendo sim com a cabeça;

E vamos colocar também muito verde, muita vegetação, as melhores árvores de fruto vão também para aqui. E Pedro voltou a concordar e a fazer que sim com a cabeça;

E vamos também distribuir sol em abundância, qualquer que seja a estação do ano. E Pedro continuou a concordar, mas agora deixou de fazer que sim com a cabeça;

E vamos pôr muita água, muitos rios e lagos. E Pedro, desta vez nem falou, nem fez que sim com a cabeça;

E vamos pôr grandes searas e terra fértil para agricultura. Aqui Pedro mexeu-se nervoso, corou, fez um esforço e disse: Deus, meu senhor, estamos a gastar aqui o melhor que temos, o que é que deixamos para os outros?

Deus levantou os olhos serenos, olhou para Pedro cabisbaixo e comprometido e respondeu-lhe no habitual tom calmo e conciliador: não te preocupes, vais ver a porcaria de gente que cá vamos deixar.

E Pedro sorriu, voltou a concordar e a dizer que sim com a cabeça, deslumbrado com a sapiência, justeza e generosidade do seu Deus.

Como se costuma dizer esta anedota é velha, é muito conhecida nos meios do humor. Faz muito jeito para arrefecer entusiasmos de quem acha que o seu país é muito rico e o maior de todos. Já a usei em algumas nacionalidades, chegou a vez da minha: não merecemos o país que temos.