Cardus Edição 74, 15-02-2020
Ir um fim de semana ao Porto para quem se desloca num veículo classe 2 tem muito de estrada e pouco de Porto. Isto porque, para além do Porto não ser aqui ao lado, para se fugir às portagens, se gasta mais uma ou duas horas em percursos alternativos, mesmo que munidos dum bom GPS programado para descobrir o percurso mais rápido. A viagem é mais demorada, mas muito mais diversa e interessante, as autoestradas são muito monótonas e enfadonhas.
Vamos então pelo IC2 que apanhamos à saída de Aveiras (é difícil evitar a autoestrada até aqui). É uma via muita animada, pois, em grande parte do percurso, é a avenida ou rua principal dos lugares ou povoações que atravessa. As bermas estão cheias de comércio, barracas, fabriquetas, oficinas e muita gente indiferente ao trânsito que lhe passa mesmo ao lado. Semáforos aparecem regularmente, é ainda habitual ter-se, à frente, um camião ou um condutor cumprindo rigorosamente os limites de velocidade impostos pelas placas. E como em muitas mais estradas de Portugal não faltam postos de serviço ocasional, versões caseiras dos congéneres da “red street” de Amsterdão.
As cidades sucedem-se umas às outras à velocidade possível. Passa-se resvés ao Mosteiro da Batalha, logo a seguir atravessa-se Leiria e admira-se o seu belo castelo dominando a cidade. Depois Pombal, mais um belo castelo, Condeixa, e eis que surge Coimbra, agora é a Universidade lá no alto e a sua famosa cabra. Segue-se a Mealhada, leitão, leitão e mais leitão, a densidade urbana começa a ser cada vez maior. O GPS leva-nos também pelo centro de Arcozelo, avenidas largas e ajardinadas transformam-se de repente em caminhos asfaltados e esburacados ladeados de casas contínuas e escanzeladas a pedirem uma reforma ou renovação que tarda em vir, se é que vem. Finalmente atravessa-se a bela ponte da Arrábida e, então sim, estamos no Porto. Foram quase sete horas de viagem apenas com uma paragem para uma pequena refeição em Condeixa num parque abandonado dum café desativado e vandalizado.
No Porto, o lugar de encontro para uma pequena reunião de trabalho era na Foz, uma zona nobre, limpa, onde o moderno e o antigo se encontram lado a lado e onde se encontra a praça do Império, perto da qual a classe 2 ficou estacionada.
Terminada a reunião vai-se até à zona monumental dos Aliados e à Ribeira. A Ribeira é aquele sítio histórico que dizem que é bonito para ver, mas que constato muito mau para viver. Duas curiosidades: um armazém de velharias junto à Alfândega, onde se pode comprar tudo o que é velho e beber toda a espécie de vinhos do Porto, e um espaço de práticas artesanais com barro e produção de azulejos e outros objetos. O artesão já não vendia nada desde dezembro, ficou encantado com a jarra que vendeu nesse dia.
Já é noite, hora de pôr o estômago a trabalhar. Há muitas tascas na zona, aqui, acolá, esta não, a indecisão termina quando alguém pergunta “inside?”. E, assim, se come uma francesinha e um prego no pão bem aviados no quentinho do “inside”. Quando se vem para o “outside” já é noite avançada, foi só apreciar rapidamente a iluminação do rio e margens e marchar de novo para a zona da Foz, para aquele lugar tranquilo onde a classe 2 volta a estacionar e os passageiros se põem confortavelmente a dormir.
Domingo de manhã, toma-se o pequeno almoço na “Juquinha” e leva-se pão fresco a quem ainda dorme. Depois foi dar a última olhadela ao rio e apontar a Lisboa, olhos no GPS, o mesmo caminho que na ida.
Compara-se muito Lisboa e Porto, mas as cidades não são comparáveis, têm alma e vida muito próprias. O calcário em Lisboa e o granito no Porto marcam profundamente as duas urbes: Lisboa parece-me mais leve, luminosa, mais solta e mais pedante; O Porto mais sólido, mais escuro, mais seguro e mais autêntico. São duas cidades diversas, ambas parte deste país, para mim, com a maior diversidade do mundo por metro quadrado logo a seguir à Guiné-Bissau.