Cardus Edição 73, 01-02-2020

Transportamos Pessoas

À hora certa já a fila que aguardava o autocarro era longa. Este estava perto, mas fechado, aguardava-se pacientemente o motorista que ainda não tinha chegado. Não se esperou muito, uns dois ou três minutos, ei-lo que chega, óculos escuros e passo apressado, o café provavelmente tinha demorado mais tempo ou então a noite tinha sido longa e cansativa. Assim como que a compensar o ligeiro atraso, o autocarro dirigiu-se bruscamente para a paragem, só faltou chiarem os pneus na curva, mas nenhum peão foi molestado, não por falta de vontade do motorista, apenas porque conseguiram fugir a tempo.

Portas abertas, entram os passageiros, assim que a fila acaba fecham-se, os que vinham a correr, vão ter de esperar pelo próximo. Aqueles que ainda não se sentaram vão ter de se agarrar bem, o arranque atira-os para trás e a curva a seguir para cima dos que estão sentados. Os passageiros pedem desculpas uns aos outros, o motorista sorri divertido.

Finalmente está tudo no seu lugar, quem está de pé já se agarrou bem, apenas o corpo acompanha os movimentos ondulantes do autocarro. Há duas ou três paragens que não sucede nada, a viagem está a ficar uma pasmaceira. O motorista volta a sorrir para um candidato a passageiro que fez o sinal de paragem um bocado tarde, vai ter de estar mais atento ao próximo autocarro se não o quer perder também.

Estamos a entrar em Carnaxide, entram muitos passageiros, entre eles uma que conhece o motorista, cumprimentam-se com gestos cúmplices. A conhecida é forte, não se senta, fica ao lado do motorista, começam uma conversa animada com muitos risinhos, palavrões pelo meio, histórias de sucesso da vida social animada.

Um peão encontra-se a meio duma passadeira, obriga o autocarro a parar, um peão não precisa de muito espaço, o autocarro ocupa a passadeira quase toda. O peão olha para o motorista, diz qualquer coisa que ninguém percebeu, o motorista não responde, espera pela margem mínima e arranca. A amiga solidária ri-se para o peão, para ele está o indicador em riste bem levantado e apontado.

Mais umas paragens, entram mais passageiros, agora só por um lado que o outro está ocupado pela amiga do motorista. Esta simula um gesto de se afastar, mas continua a impedir a entrada, quem quiser que passe ao lado, direitos de quem é compincha do motorista.

Estamos a chegar à Senhora da Rocha, há uma ponte estreita onde só passa um carro de cada vez, um sinal indica a prioridade de passagem. Não há que olhar para ver se vem alguém, vai-se a direito, se alguém aparecer que faça marcha atrás.

À entrada de Queijas as curvas são apertadas, o motorista habilidoso só precisa duma mão para curvar, agora é a amiga que dança, já não há passageiros em pé, os que sobram estão sentados a apreciar.

Mais umas paragens, mais uns arranques e este passageiro chegou ao destino. Atempadamente levantou-se, agarrou-se bem e, sempre agarrado a qualquer coisa, aproximou-se da porta de saída. Aguentou a travagem que quase o esmagava contra o varão, conseguiu ainda agarrar um idoso mais descuidado que vinha projetado lá de trás. Assim que a porta abriu, saiu rapidamente não fosse ter de sair na paragem seguinte. Cá fora esperou que o autocarro passasse e só então se fez à passadeira. Motorista e amiga lá seguiram felizes, ela e o autocarro dançando de acordo com a batuta do maestro do volante.

Assim se viajou de autocarro desde Algés a Queijas utilizando a carreira do operador que tem o monopólio na zona. O slogan da transportadora dá o título a esta crónica. Um dia a transportadora vai acordar, provavelmente já tarde: outros virão, estes sim, a transportar pessoas.