Cardus Edição 104, dezembro 2021
Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?
Mario Quintana
Um silêncio total. Não bem total, mas quase. Certos ruídos de fundo mantinham-se no ar: os cilindros da fábrica, alguns cães a ladrar e um ou outro carro fazendo-se notar momentaneamente pela estrada. Não havia vento nem frio. O sol aquecia a vegetação brilhante e a humidade livre perfumava o ar. Estava-se bem.
Em cima da tampa do poço colocaram-se os pratos, o vinho, o pão e tudo o mais que compõem uma refeição: que foi degustada devagar, sem pressa, com o menos ruído possível para não perturbar o ambiente, muito menos o silêncio que pairava no ar.
No fim veio o café, o digestivo e o bolo (folar) para acompanhar. Tudo tomado em cima da tampa do poço, lentamente, sem barulho, não fosse o silêncio acordar.
E depois veio o sono, galopante. E foi na cabana, aquecida pelo sol, um pouco mais além, que o sono se instalou e durou até quando o sol já se despedia.
O outono ameniza-nos o verão e prepara-nos para o inverno. E o frio chega durante a noite, onde já não há sol para aquecer. O calor vem agora do próximo, do que está colado, bem colado. E assim dormir, edredons até ao pescoço, tudo bem tapado para o calor se manter e não se perder.
E no novo dia, quando o sol reapareceu pela janela, foi levantar, vestir rápido, gelar a cara com a água que ficou cá fora e lentamente voltar a saborear o verão ameno dum dia de outono com um sol que ainda não é de inverno, mas para lá caminha.