Cardus Edição 103, novembro 2021

Cardus





Filhos de um Deus Menor (1)


É a melhor parte do dia. Aquela em que o dia acaba, que não há mais limpezas. Que tudo só vai recomeçar no dia seguinte. Que apenas tem que caminhar e, por momentos, libertar o pensamento e o olhar. E é só ela e mais ninguém.

Gostava de chegar a casa e sentar-se a ver televisão ou fazer qualquer coisa que lhe desse prazer. E encontrar tudo arrumado e limpo e o jantar pronto que alguém fez ou trouxe do takeaway. Como sucede em algumas das casas onde limpa. Mas não pode, a família espera por ela e pelo jantar.

Gostava de ter outro emprego. Um emprego moderno, com muito protagonismo e dinamismo. Um emprego limpo. Como o dos patrões: com muitos telefonemas, muitas viagens, muitas reuniões e muita azáfama. Um emprego de sucesso. Mas não tem, o seu trabalho é limpar, limpar o dia todo, limpar o que fica de quem suja mas não limpa.

Gostava de poder ter estudado. De ter tirado um curso. De ser doutora de qualquer coisa. Ou de ser filha de uma doutora. Gostava de ser uma pessoa culta. Que soubesse ler um livro, como faz a patroa enquanto ela limpa. E pela cara da patroa, um livro deve ser muito melhor de ler do que limpar.

Gostava de ir ao ginásio, ter um personal trainer, ter um corpo moldado e bem trabalhado. Ser feliz como diz o anúncio do Homes Place que vai encontrar um pouco adiante. Gostava de ser magra, ágil, elegante, não ter dores de costas, nem os braços e as pernas inchadas.

Gostava de vestir bem e ter tempo para se arranjar. Como as amigas da patroa, às quintas, ao fim da tarde, à hora do chá. Gostava de não cheirar a lixívia e não andar de avental.

Gostava disto e muito mais. Mas já deixou de gostar dos gostos que teria gostado. Contenta-se com o que nunca lhe faltou: o fim do dia, o regresso a casa, pelo caminho habitual, sem pressa, apenas ela e ela própria, mais ninguém.