Cardus Edição 102, outubro 2021

Cardus





Ver sem ser visto


Recordo Angola no período pós-independência. Um contrato com uma empresa sueca levou ao país, por um perído relativamente curto, alguns técnicos para a realização de trabalhos de instalação e ensaio de equipamentos. Num período de carências de toda a ordem, a equipa de suecos dava nas vistas, principalmente pelos carros que cada um tinha distribuído e cujo fornecimento estava incluído no projeto. Os carros eram nada mais nada menos que o último modelo da Volvo, umas stations grandes equipadas com o que havia de melhor em termos de tecnologia. E então, todos os dias de manhã, era vê-los chegar, cada um no seu carro, portas trancadas e vidros fechados, a cabecinha loura, sizuda e enfastiada, destacando-se no interior enorme e climatizado da redoma protetora. Quando o projeto acabou houve a corrida aos Volvos, não me coube nenhum, mas não deixei de os experimentar, eram realmente umas grandes máquinas.

O carro da imagem também é um Volvo, mas mais moderno. Quarenta e seis anos o separam dos Volvos dos suecos que sobressaiam no caos rodoviário de Luanda. Para além da tecnologia que entretanto evoluiu, a diferença que mais interessa a esta crónica são os vidros: são fumados, o que quer dizer que quem está dentro vê o que se passa cá fora mas quem está fora não vê (ou vê mal) o que se passa lá dentro. O que dá uma vantagem a quem está dentro: ver sem ser visto. E que provavelmente faria muito jeito aos técnicos suecos que há quarenta e tal anos tinham de se deslocar pelas ruas de Luanda.

Este mundo moderno em que somos todos simpáticos e boas pessoas, mas com desconfiança crescente, leva a que toda a gente, cada vez mais, principalmente por segurança, procure ver sem ser vista. É assim nos carros, hoje quase todos com vidros escuros, é assim nas casas e prédios onde as janelas são também cada vez mais opacas, já nem precisam daquela cortina que se puxava para o lado quando a curiosidade nos atacava. A propósito, alguém me disse que nas casas holandesas os espelhos estão todos virados para a rua, uma maneira interesssante de ver o que se passa lá fora, ou então, quem chega.

Os óculos que começaram por ser um instrumento para melhorar a visão ou proteger do sol são hoje, também, boas ferramentas para o ver sem ser visto. Os escuros, claro. Não escondem muito, mas tapam aquilo que as pessoas mais têm de expressivo: os olhos. Para onde está ele(a) a olhar é a pergunta que faço sistematicamente a mim próprio quando estou a falar com alguém de óculos escuros. Saudades dos tempos em que as conversas eram do tipo “olhos nos olhos”. E há olhos que é mesmo uma pena não estarem descobertos.

O expoente máximo do ver sem ser visto é o anónimo. Aquele que ninguém vê, porque ninguém sabe quem é, apenas que existe. Aquele que cria uma conta no facebook ou no gmail e denuncia e divulga o que quer que seja real ou inventado. Sem qualquer perigo, sem qualquer risco, não tem nome, não tem cara,  só o próprio sabe quem é ou quem foi. E os visados, justa ou injustamente, verdade ou mentira, tem a partir desse dia a vida completamente transtornada.

E para terminar, de certo modo relacionado com este tema, vem-me à memória uma canção antiga, com letra de Jerónimo Bragança e Nóbrega e Sousa, intrerpretada por Tony de Matos, um cantor que, injustamente, apenas comecei a admirar depois do seu desaparecimento. A canção chama-se “A pedra que caíu”, vale a pena ouvi-la, apenas requer um ambiente calmo, concentração e atenção ao poema. E, caso possível, um sistema de som com uns bons graves.