Cardus Edição 101, setembro 2021

Cardus




A juventude engana: às vezes há um simples ímpeto animal, um rebentar de Primavera, mas sem fruto.

Agostinho da Silva


BSA 750 cc


Estamos em Nova Lisboa, Angola, em frente à escadaria principal da Escola Industrial e Comercial Sarmento Rodrigues, princípios dos anos sessenta. É a hora da saída, a melhor hora do dia para professores e alunos. É, principalmente, a hora dos encontros, dos olhares cumplices, da procura de respostas nos tempos em que estas vinham mais pelos olhos do que pela boca. É também a hora do mostrar que se existe,  que o desejo também nos assalta, que é preciso chamar a atenção dos olhos que não nos veem.

Um estudante tinha uma mota, uma senhora mota. Uma BSA 750! Uma mota para pessoas de barba rija. Para a pôr a trabalhar era preciso dar ao starter, uma alavanca que fazia o motor rodar. E não era fácil rodar um monocílindrico de 750 cc. Era preciso ser pesado, dar algum balanço e na altura própria colocar toda a força em cima do mecanismo. Miúdos de quinze anos não eram propriamente pesos pesados mas, com algum jeito e habilidade, conseguiam por o motor a trabalhar. E quando o peso de um não chegava acomodavam-se dois em cima do starter.

A mota não era nova, tinha mesmo alguns anos. O motor já tinha sido aberto uma série de vezes e para a conduzir era necessário ter alguns conhecimentos técnicos. Por exemplo, quando a mota caía, o que sucedia regularmente, sem consequências para os condutores ágeis em saltar no momento próprio, era necessário soprar no depósito para fazer chegar a gasolina ao carburador que a tinha perdido na queda. Levantar a mota também tinha um técnica própria quando não havia alguém por perto a ajudar. Era de costas que se levantava.

Ser amigo do dono era um privilégio de poucos. Havia alguns dias em que o dono vinha de mota para a escola. E, nesses dias, com alguma sorte e boa disposição do proprietário, podia ter-se oportunidade de dar uma volta com a “senhora”.

Um dia chegou a vez de um dos privilegiados. Precisamente à hora da saída a mota foi-lhe cedida para uma pequena volta, que poderia ter sido nas traseiras da escola, mas não, importante era dar nas vistas, foi mesmo pelo átrio frontal, com passagem junto à escadaria principal, por onde todos tinham de sair. A primeira passagem correu bem, homem dominando a máquina, o motor a roncar,  olhares curiosos, …

Chegado ao fim da rua, na hora de virar para trás, alguma coisa correu mal, porque o condutor foi parar ao chão. Treinado em saltos nada sofreu apenas a mota estava caída. Um rápido reconhecimento visual deu para verificar que ninguém se tinha apercebido da queda, a escadaria principal já estava relativamente longe. Não havia tempo a perder, com a técnica apropriada levantou a mota e lá meteu a boca na abertura do depósito para fazer chegar a gasolina ao carburador. Claro que a mota não pegou à primeira, nem à segunda e provavelmente nem à terceira, mas ao fim de algum tempo resignou-se, o motor começou novamente a roncar. Altura, então, de realizar a viagem de regresso.

A segunda passagem teve, aparentemente, mais sucesso. O condutor notou que havia sorrisos em alguns rostos o que não tinha acontecido na primeira.

Terminado o show o condutor devolveu a mota ao dono que o esperava no canto habitual. Estranhamente também se começou a rir o que não era muito comum nele. Naqueles tempos não se usava capacete, só os mais cuidadosos protegiam os olhos com óculos de plástico seguros por elásticos. Não era o caso do condutor que tinha a cara e cabeça descobertas. Apenas, à volta da boca, com a mesma dimensão da abertura do depósito, uma coroa circular, cor de óleo sujo, se destacava do branco da pele, onde proliferavam pequenos tufos de pêlos, indicadores de que a inocência tinha acabado, que era preciso procurar aquilo que nem sempre se encontra.