Cardus Edição 131, março 2024
Uma colega de voluntariado de nacionalidade canadiana passou por Newfoundland e descobriu que os portugueses tinham andado por ali em tempos idos. Sabendo que sou filatelista e português, comprou numa loja filatélica um bloco de selos antigos e fê-lo chegar a mim através de outro colega. Uma maneira simples e simpática de partilhar momentos e referências.
Os selos têm figuras e elementos que mereciam uma investigação apurada sobre quem são e o que representam. Mas não foi possível, pelo que restou apenas uma pesquisa sobre a ligação história que existiu entre os portugueses e a Newfoundland, ou seja, a Terra Nova, ou terra do bacalhau, como se aprendeu na escola.
Os portugueses nunca assentaram arraiais na Terra Nova como o fizeram noutras paragens. Para além de duas* (ou três) expedições realizadas na era dos descobrimentos, numa das quais foi mapeada com grande pormenor a costa da ilha, nada mais consta nos registos conhecidos da sua “descoberta”, onde prolifera muita informação (e pouca confirmação) principalmente da parte de ingleses, franceses e espanhóis.
Foi mais no mar que os portugueses se instalaram. A razão prende-se com o bacalhau, o nosso “fiel amigo”, que abundava na zona e que se tornou um importante elemento no comércio internacional, nomeadamente na Europa, já na altura dos descobrimentos. Portugal ainda conseguiu pescar alguma coisa, mas foi rapidamente corrido por corsários franceses e ingleses que controlavam a mina. O facto de não ter sido encontrada na zona a procurada porta de acesso ao oriente deve também ter contribuído para que Portugal se desinteressasse da região.
Contudo, Portugal voltou à Terra Nova, quatro séculos depois. Não com caravelas mas com lugres, os denominados barcos da frota bacalhoeira portuguesa. Foi mais uma epopeia, agora chamada, “epopeia do bacalhau”, onde, tal como na história trágico marítima, também há muito comércio e muitos dramas, não de barcos que se afundaram mas que foram afundados.
Não há assim muitas referências locais à presença portuguesa na Terra Nova. Apenas descobri duas: O nome (aceite como de origem portuguesa, tal como o da parte continental, Labrador) e uma enseada, Portugal Cove-St. Philip's, nos arredores do porto St. John's (capital da província), por nós designado como S. João da Terra Nova, porto de abrigo da frota bacalhoeira portuguesa durante a “epopeia do bacalhau”. Portugal Cove recebeu o nome de Gaspar Corte Real, quando andava a explorar a costa da Terra Nova, não se sabe se por apenas a ter registado num mapa, ou se por ter ido a terra. A tradição oral da população diz que dois marinheiros que haviam morrido nas embarcações foram enterrados na parte norte da povoação.
Enquanto navegava pela internet na procura da Terra Nova descobri muitos textos, fotos e vídeos sobre a ilha, como é natural neste mundo moderno da informação digital. E o resultado desta descoberta fica aqui registado: É um lugar único, autêntico, com fiordes, icebergs, escarpas, pantanais, desertos, paisagens de todo o tipo, com muito daquela vida que em outros lugares da terra já morreu ou está perto disso. É caso para dizer, visite a Terra Nova!
* as expedições de João Álvares Fagundes e dos irmãos Gaspar e Miguel Corte Real em 1501 e 1502.