Cardus Edição 139, novembro 2024
HERBERTO HELDER - (Funchal, 1930 – Cascais, 2015). Escritor, exerceu múltiplas atividades por diversos lugares, numa vida quase nómada. Esteve ligado ao grupo do Café Gelo, convivendo com Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Helder Macedo, entre outros, integrando-se inicialmente no movimento surrealista, tornando-se mais tarde o mentor da Poesia Experimental. É considerado frequentemente um poeta obscuro. Amor, morte, sangue, mãe, noite, casa, criança são alguns dos tópicos comuns que Herberto Helder visita e reconfigura reiteradamente em sua poética, “o poema é um objecto carregado de poderes magníficos, terríveis; promove uma desordem e uma ordem que situam o mundo num ponto extremo: o mundo acaba e começa”.
Algumas das suas obras: Amor em Visita (1958), A Colher na Boca (1960), O Corpo o Luxo a Obra (1978), Photomaton & Vox (1979), A Morte Sem Mestre (2015), Poemas Canhotos (2015), Poesia Toda (1990) (1996)…
queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima
como de facto dia a dia sinto que morreu muito,
melhor é pôr-me quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas,
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição
menos inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna
com a fruta à escolha nas duas mãos,
ainda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão
lenta que nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de
milagres,
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
(Herberto Helder, A Morte Sem Mestre, Porto Editora, 2014)