Cardus Edição 138, outubro 2024

A Memória das Palavras

Seleção e notas de

Raul


PABLO NERUDA (Parral - Chile, 1904 – Santiago do Chile, 1973). Diplomata chileno, a Pablo Neruda, pseudónimo de Nefatalí Ricardo Reyes Basoaltu, foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura (1971). “Desde o combate direto, ou a perseguição e o exílio que valorosamente suportou, a trajetória do poeta configura simultaneamente a evolução de um intelectual militante e uma das principais aventuras expressivas da lírica em língua castelhana”. O belo filme Il Postino/O Carteiro de Pablo Neruda (1994) conta a sua história na Isla Negra, com filmagens em Itália, onde ficcionalmente se torna amigo de um carteiro que lhe pede para o ensinar a escrever versos.

Algumas das suas obras: Veinte Poemas de Amor y una Canción Desesperada (1924), Residencia en la Terra (1933-1935), Canto general (1950), Odas Elementalas (1954-1957).




O TEU RISO

TU RISA

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria.

(Pablo Neruda, Poemas de Amor, trad. Nuno Júdice, D. Quixote, 2024)

Quítame el pan, si quieres,
quítame el aire, pero
no me quites tu risa.

No me quites la rosa,
la lanza que desgranas,
el agua que de pronto
estalla en tu alegría,
la repentina ola
de plata que te nace.

Mi lucha es dura y vuelvo
com los ojos cansados
a veces de haber visto
la tierra que no cambia,
pero al entrar tu risa
sube al cielo buscándome
y abre para mí todas
las puertas de la vida.

Amor mío, en la hora
más oscura desgrana
tu risa, y si de pronto
ves que mi sangre mancha
las piedras de la calle,
ríe, porque tu risa
será para mis manos
como una espada fresca.

Junto al mar en otoño,
tu risa debe alzar
su cascada de espuma,
y en primavera, amor,
quiero tu risa como
la flor que yo esperaba,
la flor azul, la rosa
de mi patria sonora.

Ríete de la noche,
del día, de la luna
ríete de las calles
torcidas de la isla,
ríete de este torpe
muchacho que te quiere,
pero cuando yo abro
los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van,
cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire,
la luz, la primavera,
pero tu risa nunca
porque me moriría.

(Pablo Neruda, Poemas de Amor, D. Quixote, 2024)