Cardus Edição 137, setembro 2024

A Memória das Palavras

Seleção e notas de

Raul


URBANO BETTENCOURT - (Piedade, Pico, Açores, 1949). Escritor (poesia, narrativa ficcional, ensaio), professor. Licenciado em Filologia Românica. Doutorado em Estudos Portugueses. Na sua obra poética “há uma íntima ligação entre a vida e a escrita, decifrando o enigma dos dias e viaja da ilha para o mundo, funcionando a ilha como uma alegoria ou uma metáfora do mundo”, “instaurando um diálogo com os lugares, reais ou imaginários”; “recupera e reconstrói os lugares, as sombras, os afetos que atravessam a sua existência”, sendo “presenças indeléveis a guerra, os desencantos e as perdas”.

Obra poética: Raiz de Mágoa (1972), Marinheiro com Residência Fixa  (1980), Naufrágios Inscrições (1987),  Algumas das Cidades  (1995), Com Navalhas e Navios (2019), Outros Nomes, Outras Guerras [antologia] (2013).




A persistência da memória

Lembro-os assim
pássaros no vento, entre o riso
e a morte.
E subitamente o aflito voo
em que desaprendiam
a sustentação do corpo
o lugar exacto do sul e do norte
sobre o mapa do coração.

Será preciso de novo dizer
que tinham vinte anos
e arrastavam, ao tombar,
os primeiros frutos do Verão?

Viram então o céu abrir-se
No rumor dos pássaros metálicos silenciando
a voz os bichos e das aves e uma figura
de anil pousar nos ramos do embondeiro
- eram de luz os seios intocados
e as vestes que ao vento esvoaçavam,
de leite e mel a voz que lhes chegava:
“Vinde a mim os que estais sobrecarregados,
e eu vos aliviarei.”

E as mãos dessa formosa criatura
Tocaram os olhos dos mortos e fecharam-nos
para sempre e nos corpos dos outros passaram
o óleo da unção que dá sossego
às almas condenadas e aconchega mesmo
os membros inexistentes.

E quando os céus de novo se fecharam
sobre os matos da Guiné
um sopro de aflição na sua curva
se desfazia:
“Anjo da Morfina, minha companhia,
Guardai o meu corpo de noite e de dia!”

De Luz e Sombras

Talvez não saiba dizer-te como doíam
os meus catorze anos,
nesse tempo em que também eu procurava
o lugar onde melhor situasse
o meu corpo e o meu olhar
sobre as coisas,
ou como a vida sempre me pareceu
mais estreita que o meu desejo
e nesse conflito o mundo era apenas um jogo
de sombras lançadas contra a luz que eu buscava.
Sei hoje que desse tempo distante
e perturbado
guardo comigo o gosto
de não me ter deixado vencer pelo peso
dos dias
nem pelas vozes que anunciavam territórios
onde o pão, o vinho e as flores surgiam ao menor gesto.
Isto me dá a força com que enfrento o tempo
por certo não menos perturbante que o dos meus
catorze anos.
E isto te queria dizer, agora que os teus
nos chegam neste Maio
às vezes inquieto, mas a caminho
do Verão e da sua plenitude.

(Urbano Bettencourt, Com Navalhas e Navios, Companhia das Ilhas, 2019)