Cardus Edição 135, julho 2024

A Memória das Palavras

Seleção e notas de

Raul


MARIA do ROSÁRIO PEDREIRA - (Lisboa, 1959). Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas. Professora. Editora. Poeta. A poesia de Maria do Rosário Pedreira reflete “a rutura amorosa sentida como trágica”, expondo “os sinais do fim e as marcas da lembrança”, recordando os momentos de partilha e cumplicidade. “A espera, a ausência, o temor, a solidão, a memória, o abandono” perpassam em muitas páginas da sua poesia. [Pedro Mexia, prefácio, Poesia Reunida]

Algumas das suas obras: Poesia: “A Casa e o Cheiro dos Livros” (1996); “O Canto do Vento nos Ciprestes” (2001); “Nenhum Nome Depois” (2004); “Poesia Reunida” (2012); “O Meu Corpo Humano” (2022). Ficção: “Alguns Homens, Duas Mulheres e Eu” (1993). Literatura juvenil: “Detective Maravilhas”; “Ilha do Paraíso” (2000). (…)






Dizem, meu amor, que neste inverno os ventos
passarão a mão pela seara e levarão o trigo;
que os dias serão escuros e frios – e tão curtos
que neles não caberá paixão alguma, por pequena
que seja. Contam que punhais de chuva se abaterão
sobre os pomares; e que as árvores crescerão
como feixes de serpentes, procurando ganhar
desesperadamente o céu. E acrescentam que

os pássaros adivinham tudo isto e que por isso
se calam de manhã – ouço-os bater as asas
num aceno triste; partem para o sul, dizem,
se dizem a verdade.

Só a casa ficará de pé a olhar a planície. E
dentro dela os sonhos e as recordações do verão –
retratos dos lugares que nunca visitámos, uma camisa
de linho no espaldar da cadeira, um livro para sempre
interrompido sobre a cama. Ouvíamos uma canção triste
na grafonola velha. Dançaríamos o ano inteiro, disseram
uma noite ao ver-nos atravessar a sombra da lua.
Ignoravam, então, o inverno.

 


 

Agora, que os ventos deixaram as
folhas arrumadas junto às bermas
e se foram daqui, que o sol secou
a lama nos caminhos, que o verão
chegou, que os celeiros se encheram
de um trigo que vai ser pão todos

os dias, que o vento sopra mais longe
da nossa casa, que a saudade acordou,
que o sol secou as lágrimas nos rostos
dos nossos pais – vem, volta como

voltam as manhãs todos os dias, como
o rio regressa ao mar, e o mar à praia,
e o pão chega de novo quente à nossa
mesa ainda quase de noite, quase de
madrugada, como se fôssemos então
dividi-lo contigo. Vem e não temas, já

não há palavras que possam sufocar-te,
só abraços – o remorso pesa nos
nossos lábios como os frutos maduros
que dobram os ramos nos pomares e
queríamos ver outra vez nas tuas mãos,
na tua boca. Volta o teu quarto está

como o deixaste, a mesma luz invade
aos domingos as janelas onde agora os
nossos pais se debruçam secretamente
a ver se vens, embora digam apenas que
felizmente os campos estão ceifados e as
folhas arrumadas junto às bermas, que o
verão chegou, que o sol secou a lama nos
caminhos, que há-de haver pão para todos

este ano – e que o nosso coração já te
perdoou, por que há sempre perdão para
quem tem o nosso sangue, o nosso nome.

(Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida, QUETZAL, 2012)