Cardus Edição 134, junho 2024

A Memória das Palavras

Seleção e notas de

Raul

Estátua de José Régio, Parque dos Poetas, Oeiras

JOSÉ RÉGIO – pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, (Vila do Conde, 1901 – 1969), poeta, autor dramático, romancista, novelista, crítico, ensaísta e artista plástico. Licenciado em Filologia Românica, professor no Liceu de Portalegre. Fundador (com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões), editor e diretor da revista Presença. A sua obra, particularmente a poesia, pretende ser a expressão das mais íntimas emoções do artista e, por meio da observação psicológica, a expressão do humano através dum homem, uma revelação da personalidade humana através da personalidade individual.

Algumas das suas obras: Poesia: “Poemas de Deus e do Diabo” (1925); “As Encruzilhadas de Deus” (1936); “Fado” (1941); “A Chaga do Lado” (1954); “Cântico Suspenso” (1968); (…). Ficção: “O Jogo da Cabra-Cega” (1934); “Davam grandes passeios aos domingos” (1946); “Histórias de Mulheres” (1946) (…). Teatro: “Jacob e o Anjo” (1946); “Benilde ou a Virgem-Mãe” (1947); “Três Máscaras” (1984); “El-Rei D. Sebastião” (1949) (…).




Cântico Negro




“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe!

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Porque me repetis: “vem por aqui!?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí

(José Régio, “Poemas de Deus e do Diabo” (1925))

 

Colegial

Em cima da minha mesa
Da minha mesa de estudo,
Mesa da minha tristeza
Em que, de noite e de dia,
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo,
A mim,
Também,
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!
À cabeceira do leito,
Dentro dum lindo caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora
Que se parece contigo,
E que tem, ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que tenho,
De menino pequenino...!

No fundo da minha mala,
Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços -- e nada leves! --
Atados com um retrós...

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(Sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!

(José Régio, “As Encruzilhadas de Deus” (1936))