Cardus Edição 132, abril 2024
Raul Leal Gaião
NUNO JÚDICE (Mexilhoeira Grande, 1949 – 17/3/2024), poeta, ficcionista, investigador, ensaísta, tradutor. Personalidade discreta e quase silenciosa. A sua vida foi em grande parte preenchida pela escrita. Foi um “operário da escrita”, obrigando-se a escrever todos os dias. Costuma dizer-se de um escritor, no momento do fim, “deixa a literatura portuguesa mais pobre”, Nuno Júdice enriqueceu e engrandeceu fortemente a literatura portuguesa, particularmente a poesia. Agora que a sua obra está completa, é o momento de descobrir “a mala do poeta” e ir ao encontro das “palavras exactas”, “duras”, (…), “atiradas” sobre os seus versos.
Mas que queremos da vida? É a vida? O
que se procura em cada segundo para se perder
em cada segundo? O tempo, assim, de nada
nos serve. Um dia, dando por nós próprios,
perguntamo-nos o que fizemos, por onde
andámos, que cidades e casas percorremos,
sem que uma resposta nos satisfaça. A
vida, então, limita-se a ser o que fez
de nós, sem que o tenhamos desejado, e
nada pode ser feito para voltar atrás, nem
para restituir os passos trocados de
direcção, as frases evitadas no último
extremo, o olhar que se desviou quando
não devia. Ah, sim – e o amor? É isso
que queremos da vida? É verdade, cada um
dos abraços que se deram, contando cada
instante; o rosto lembrado no auge do
prazer, quando um súbito sol desponta
dos seus lábios; os cabelos presos nas
mãos, como se elas prendessem o feixe
da eternidade… Assim, a vida poderá
ter valido a pena. É o que fica: o que
nos foi dado e o que damos, sem que nada
nos obrigasse a dar ou a receber; o puro
gosto do acaso na mais absoluta das
obrigações. Então, volto a perguntar: que
outra coisa queremos da vida?
Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.
Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.
Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.
Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.
Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.
Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro deles e as possamos ver nos seus lugares.
(Nuno Júdice, Cartografia de Emoções, Publicações Dom Quixote, 2001)