Cardus Edição 131, março 2024
Seleção e notas de
Raul Leal Gaião
(raullealg@gmail.com)
MIGUEL MÉNDEZ CAMACHO - (Colômbia, 1942), advogado, poeta colombiano, ensaísta e professor universitário. Diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidad Externado de Colômbia em Bogotá. Responsável pela coleção de poesia da Colômbia “Un libro por centavos”, com edições económicas e onde tem publicado vários títulos seus. Foi conselheiro da Embaixada da Colômbia em Buenos Aires.
Algumas das suas obras: “Los golpes ciegos” (1968); “Poemas de entrecasa” (1971); “Desencantos y cantos” (2008); “Memoria de tu cuerpo” (2003); “Tristura. Poesía reunida” (2017); (…)
Na trivial conversa dos operários
que percorrem a sua rua
nos grandes bocejos da madrugada,
no monólogo do bêbedo
que repete a história
como um disco riscado,
ou nos signos escritos sobre a parede
pela mão instável
do amargo habitante de hospedarias,
encontras rapidamente,
a palavra precisa que procuravas.
A única.
A indispensável no poema
tantas vezes falhado.
Mas se a consegues escrever
ou a repetes inumeráveis vezes
- para evitar que fuja da memória –
depois
- quando a lês ou dizes –
descobrirás também
que devora o poema.
Que o destrói.
Como rio que se bebe com a sua sede
e apaga o seu leito,
ou árvore que pisa a sua sombra
e se aniquila.
Che: não me culpes a mim
por incumprir o encontro dos montes.
Juro que quis ir
mas não tive o valor suficiente.
Meteu-me pavor a selva
a pontaria da fome
os mosquitos e os boinas verdes.
Meteu-me medo
trocar tecla por gatilho
máquina por espingarda
sonhos por revolução.
Che: não me culpes a mim
sou um cobarde
juro que quis ir.
(Miguel Méndez Camacho. In Um País Que Sonha, cem anos de poesia colombiana, trad. Nuno Júdice, Assírio & Alvim, 2012)