Cardus Edição 130, fevereiro 2024

POESIA

DANIEL FILIPE

Seleção e notas de
Raul Leal Gaião



DANIEL FILIPE - (Ilha da Boavista, Cabo Verde, 1925 – Lisboa, 1964), jornalista, poeta e romancista. Muito cedo veio para Portugal, para a Metrópole, como se dizia na época. Funcionário do Ministério do Ultramar. Aqui desenvolveu a sua atividade jornalística, literária, ensaística e radiofónica. Na fase inicial, a sua poesia é marcada pela evocação da mãe-ilha atravessada por uma melancolia, em tons de saudade e morna, caminhando posteriormente para o sentimento de amor e solidão e o confronto indivíduo/cidade. O poema “Invenção do Amor”, poema marcante na sua obra, tornou-se nos anos 60, o ícone de combate ao regime, “o amor como atitude libertária frente à opressão cultural, social e política”.

Algumas das suas obras: “Marinheiro em Terra” (1949); “Recado para a Amiga Distante” (1956); “A Ilha e a Solidão” (1957); “A Invenção do Amor” (1961); “Pátria, Lugar de Exílio” (1963); (…)




A Invenção do Amor

 

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
    janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de apa-
    relhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da
    nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
    quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio  A descoberta  A estranheza
De um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterrâneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor sùbitamente imperativo

[…]

(Daniel Filipe, A Invenção do Amor e outros poemas, Editorial Presença, 1976)