Cardus Edição 129, janeiro 2024

POESIA

JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA

Seleção e notas de
Raul Leal Gaião



JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA - (Machico - Madeira, 1965), poeta, ensaísta, teólogo. Ordenado sacerdote em 1990, licenciado em Teologia, doutorado em Teologia bíblica, arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Biblioteca Vaticana (2018), nomeado Cardeal em 2019. Vencedor do Prémio PESSOA, 2023. Além das suas funções eclesiásticas e pastorais, tem marcado presença no ensino universitário, no ensaio de reflexão teológica e filosófica e na poesia. Na poesia, a sua visão do mundo é orientada por uma “espiritualidade que pretende acolher, compreender e transcender as dilacerações, conflitos e sofrimentos da humanidade.”  A sua linguagem vai de encontro às inquietações do nosso tempo, criando um modo de expressão para comunicar com crentes e descrentes, ao mesmo tempo que procura um diálogo entre Igreja e Cultura.

Algumas das suas obras poéticas: “Baldios” (1999); “Os Dias Contados” (1998); “Longe não sabia” (1997); “A que distância deixaste o coração” (1998); “A Estrada Branca” (2005); “A Noite Abre Meus Olhos” [poesia reunida] (2010); “A Papoila e o Monge” (2013); “Estação Central” (2015); “Teoria da Fronteira” (2017); (…)




A infância de Herberto Helder

 

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobra a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
escrevi relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender álgebra

 

Travessia da infância

 

Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas

lembro-me de uma janela
na Travessa da Infância
onde seguindo o rumor dos autocarros
olhei pela primeira vez
o mundo

não sei se poderás adivinhar
a secreta glória que senti
por esses dias

só mais tarde descobri que
o último apeadeiro de todos
os autocarros
era ainda antes
do mundo

mas isso foi depois
muito depois
repito

(José Tolentino de Mendonça, A Noite Abre Meus Olhos, Assírio & Alvim, 2010)