Cardus Edição 135, julho 2024
Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho logo mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
Luís de Camões
Comecemos pela Feira do Livro de Lisboa onde, em 2024, eram esperados cerca de um milhão de visitantes.
Visitei a Feira do Livro num dia de grande multidão e assolaram-me as seguintes questões: Como explicar a contradição dos indicadores que dizem que os portugueses não têm hábitos de leitura, com esta avalanche de visitantes? Será que existem de facto, tantos leitores na Região de Lisboa?
Não tenho respostas concretas para esta contradição, mas arrisco algumas:
• A Feira do Livro é um evento bem organizado com diversas atividades para públicos diferenciados, estando atenta às exigências dos visitantes e suportada por uma boa campanha de marketing;
• É um encontro cultural e comercial bem desenhado para cativar visitantes e para conquistar leitores.
E os Museus? O que podem aprender com a experiência da Feira do Livro? Não deviam os responsáveis pelas instituições museológicas estarem atentos ao sucesso da Feira do Livro e identificar ideias e oportunidades de melhoria para os espaços que gerem?
Visitar museus tem que ser cada vez mais uma Festa, uma experiência diferenciadora que atraia e proporcione bem-estar aos visitantes. No entanto, este processo só se alcança com competência e profissionalismo e implica a prática de modelos de gestão voltados para a sociedade contemporânea, que vão ao encontro das necessidades dos mais variados públicos.
A maior parte dos leitores desta publicação não são profissionais de museus, no entanto admito que todos sejam visitantes. Assim sendo partilho, neste espaço, alguns itens que considero importantes para uma boa gestão dos nossos Museus.
O objetivo deste texto é refletirmos acerca da complexidade necessária para gerir um Museu de forma eficiente e eficaz.
ALGUNS ASPECTOS IMPORTANTES NA GESTÃO DE UM ESPAÇO MUSEOLÓGICO
O planeamento estratégico é uma das ferramentas mais importantes dos museus sendo um processo que identifica oportunidades, desenvolve uma estratégia e define ações para atingir os objetivos organizacionais.
Tal como em qualquer empresa é obrigatório a existência de um plano de ação. O Plano Museológico é uma ferramenta imprescindível para o desenvolvimento de todos os trabalhos desenvolvidos pelo museu, onde devem começar por estar identificadas a missão, a visão e os valores de cada instituição.
O Plano Museológico deve exprimir a importância do museu em todos os aspetos, dos quais destaco: os seus públicos, a sua imagem externa, as metas, as diferentes estratégias que devem ser conhecidas e partilhadas quer internamente, quer para os visitantes.
Os museus necessitam ter os seus espaços bem delineados, identificados e qual a finalidade de cada um deles. O Projeto Museográfico pensa a arquitetura do museu e o seu design expográfico. Para isso deve recorrer-se às técnicas da apresentação e interpretação das coleções, utilizando sinalética e informação, que somadas à arquitetura do museu, enriquecem a forma de apresentação de temas e a exibição dos seus objetos.
As informações que os museus apresentam sobre as suas coleções é o resultado das pesquisas históricas e documentais, além dos testemunhos que legitimam os objetos e as suas diversas narrativas. O registo das informações, relacionadas com os acervos museológicos, deve ser considerado como uma das atividades mais importantes dum museu.
Uma das funções primordiais do museu, é estar atento ao que se passa no meio cultural propondo aquisições de peças para o enriquecimento das coleções que devem ser tratadas e estudadas permanentemente.
Um museu deve ter instalações próprias onde é preservada, em condições técnicas e de segurança, a sua coleção.
A exposição e divulgação é uma das razões de existência de um museu, a ligação entre a instituição e os seus visitantes é fundamental.
Serviço Educativo é a denominação, comummente utilizada, para o serviço de mediação ou para um serviço de apoio aos públicos.
Um Museu que não comunica, não existe. Neste sentido, a existência de um plano de comunicação deve ser pensada para estabelecer a ligação entre a instituição e os diferentes parceiros e públicos.
Na maior parte das vezes os Museus são instituições com orçamentos reduzidos, limitados pelo orçamento do Estado, mas estas limitações podem e devem ser minimizadas com contributos importantes de doações, de mecenato ou com preciosos apoios de associações e de voluntariado. A captação de receitas e de recursos financeiros é de extrema importância para a vitalidade dos projetos culturais das nossas instituições museais.
Finalmente, como anteriormente referi, escrevi este texto para “leitores não profissionais dos museus”, com o objetivo que tenhamos consciência de que gerir um museu é um ato que exige competência, profissionalismo, entrega e paixão. O conhecimento da complexidade que exige a gestão museológica torna-nos mais consciente e exigentes, mas, também, reconhecidos e agradecidos pelas boas práticas que, cada vez mais, existem em Portugal.
Lembrem-se que ler… e visitar Museus, faz bem à saúde!
António Acciaioli Campos