Cardus Edição 134, junho 2024


VISITAR MUSEUS FAZ BEM À SAÚDE…

Antonio

Nota: texto elaborado com base na rubrica diária que o autor mantém na Rádio Amália: “Sei de um rio, sei de um Museu.”

MUSEU NACIONAL RESISTÊNCIA E LIBERDADE (FORTALEZA DE PENICHE)


Museu Nacional Resistência e Liberdade (Peniche)

Abandono

Por teu livre pensamento
foram-te longe encerrar.
Tão longe que o meu lamento
não te consegue alcançar!
E apenas ouves o vento!
E apenas ouves o mar!

Levaram-te a meio da noite:
a treva tudo cobria.
Foi de noite, numa noite
de todas a mais sombria.
Foi de noite, foi de noite,
e nunca mais se fez dia.

Ai dessa noite o veneno
persiste em me envenenar.
Oiço apenas o silêncio
que ficou no teu lugar.
Ao menos ouves o vento!
Ao menos ouves o mar!

David Mourão-Ferreira

A costa portuguesa sofreu, ao longo dos anos, frequentes ataques de corsários ingleses, franceses e berberes, sendo que a vila piscatória de Peniche desde cedo suscitou preocupação em relação à sua defesa e, em 1557, o Rei D. João III, consciente da necessidade de reforçar a proteção a norte de Lisboa, ordenou a construção de uma fortaleza que ficou concluída em 1645.

Durante as invasões francesas e da ocupação inglesa, identificadas algumas falhas na defesa de costa, foram feitos melhoramentos nestas construções.

Muitos anos mais tarde, durante a Primeira Guerra Mundial, a fortaleza foi utilizada como prisão e nela estiveram detidos alemães e austríacos. Entre 1936 e 1974, durante a ditadura do Estado Novo português, a Fortaleza de Peniche serviu como prisão política de segurança máxima tendo recebido cerca de 2.626 presos políticos.

Há inúmeras histórias de resistência relacionadas com a cadeia do forte de Peniche, sendo uma delas famosa: em janeiro de 1960 teve lugar a mais célebre fuga desta prisão, onde estiveram envolvidos dez presos, entre eles - Álvaro Cunhal,  Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Francisco Miguel Duarte, Guilherme da Costa Carvalho, Jaime dos Santos Serra, Joaquim Gomes dos Santos, José Carlos, Pedro dos Santos Soares e Rogério Rodrigues de Carvalho, que contaram com a cooperação de um Cabo da GNR - José Alves e uma forte colaboração e organização do Partido Comunista Português.

Parlatório da Prisão

A libertação dos últimos presos políticos ocorreu, somente, dois dias depois do 25 de Abril de 1974, na medida em que a Junta de Salvação Nacional queria distinguir aqueles que se encontravam detidos por motivos ideológicos, dos que eram réus de crimes comuns. “Ou todos ou ninguém” foi a resposta dos presos. No dia 27 de abril de 1974, deu-se a libertação dos últimos presos ficando a Fortaleza de Peniche como um símbolo da Resistência e da luta pela Liberdade.

Em 2017, o governo presidido por António Costa, colocou um ponto final nas pretensões de transformar a fortaleza num hotel, tendo determinado preservar a integridade deste edificado histórico, militar e prisional, através de um projeto de musealização.


Catálogo do Museu

O Museu Nacional Resistência e Liberdade que tem como missão investigar, preservar e comunicar a memória nacional relativa à Resistência ao regime fascista português, a partir das memórias e experiências daqueles e daquelas que lutaram pela Liberdade e pela Democracia, foi inaugurado no dia 27 de abril 2024, precisamente 50 anos depois da libertação dos últimos presos políticos.


Cela do preso Álvaro Cunhal

Neste dia, após as cerimónias oficiais da inauguração, registou-se uma enchente de populares que queriam ver o novo museu.


Populares aguardando a abertura do museu no dia da inauguração

António Acciaioli Campos