Cardus Edição 130, fevereiro 2024
“Há um barulho no silêncio dos museus
Ruben A. – Um Adeus aos Deuses
O Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda, terá sido um dos primeiros em Portugal, tendo sido instituído para a educação dos príncipes, filhos de D. Maria I e netos de D. José I. Nessa época, os museus e coleções, tinham um cariz essencialmente privado, servindo tanto como prestígio para os seus detentores, como para deleite ou formação das elites que a eles tinham acesso.
Felizmente hoje, temos em Portugal muitos e belos museus acessíveis a todas as pessoas. A gestão dos museus é efetuada quer pelo Governo central, quer pelas Autarquias, por Fundações ou mesmo por particulares, obrigando cada vez mais a uma gestão profissional destes locais.
Atualmente, os museus lidam com inúmeros desafios: a atração de diferentes públicos, a correta gestão das coleções, a conceção e administração de exposições permanentes e temporárias e da sua conservação, a liderança e envolvimento dos profissionais, apostando cada vez mais na inovação e na tecnologia, as questões relacionadas com a comunicação e o marketing, sem nunca esquecer a procura de importantes contribuições do mecenato.
Com esta diversidade de responsabilidades é obrigatório e desejável que a gestão dos museus deva ser assumida por profissionais com experiência e, preferencialmente, com conhecimentos museológicos, nomeadamente, relacionados com a coleção específica de cada Museu.
Nos últimos anos foi feito um esforço de renovação a nível dos Museus tutelados pelo Estado central, mas, segundo a minha opinião, este processo não teve o sucesso esperado por se terem mantido antigos paradigmas quer ao nível da escolha dos perfis para a administração das instituições, quer a nível dos modelos de gestão..
O insucesso visível destas práticas está refletido na pequena percentagem dos portugueses que visitam museus e, constitui-se como um sinal de que algo tem de mudar na área cultural.
Perante um diagnóstico efetuado pelo governo foi criada, em 2023, uma nova empresa chamada “Museus e Monumentos de Portugal” que compreende 38 museus e monumentos, disseminados por 21 cidades e vilas, de norte a sul de Portugal.
Estes espaços, que contam a história do país e da sua relação com o mundo, cinco são monumentos classificados pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade e dezasseis são museus nacionais.
Segundo documento elaborado por esta nova empresa - “Museus e Monumentos de Portugal” E. P. E., caberá gerir o conjunto de museus, monumentos e palácios, tendo em vista a sua progressiva autonomia administrativa e financeira e o exercício da sua missão, assente em princípios de serviço público e subsidiariedade imprescindíveis à viabilidade económica do novo modelo, mas também, concretizando um planeamento plurianual com recurso a mecanismos de gestão que assegurem a melhoria da oferta, a internacionalização e acréscimo das fontes de financiamento. Os seus objetivos são assim: melhorar a gestão dos espaços museológicos, tornar ainda mais democrático o acesso à cultura, à inclusão, à responsabilidade educativa e à diversificação de públicos estando prevista, também, uma especial atenção aos visitantes, às coleções, à gestão, aos profissionais, aos espaços, à inovação, à tecnologia e à comunicação, fatores considerados importantes para o sucesso desta nova empresa.
É uma missão difícil, mas acredito que a empresa - “Museus e Monumentos de Portugal” E. P. E., poderá e deverá fazer muito mais e melhor do que a atual situação.
Resta-me desejar que esta nova empresa tenha sucesso… para o bem da cultura e de todos nós.
“Quando era jovem andei por todos os museus do mundo.
Mas nem um deles me satisfez.
Não vi neles nenhum resquício de paixão (…).
O que almejo é um museu que transcenda a existência humana.”
do livro “O museu do silêncio”
Yoko Ogawa
António Acciaioli Campos
ANEXO: Museus e Monumentos geridos pela empresa Museus e Monumentos de Portugal.