Cardus Edição 129, janeiro 2024


VISITAR MUSEUS FAZ BEM À SAÚDE…

António Acciaioli Campos

Nota: texto elaborado com base na rubrica diária que o autor mantém na Rádio Amália: “Sei de um rio, sei de um Museu.”




Sai um Museu para a mesa do canto


“Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe,
a sociedade, por mais perfeita que seja,
não passa de uma selva.
É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro”.
Albert Camus


Os Museus e Monumentos portugueses registam mais de 17 milhões de visitantes por ano, sendo que metade são estrangeiros. No país há cerca de 35 mil espaços museológicos e patrimoniais que são praticamente desconhecidos, estando muitos deles ao abandono ou em ruínas.

Para alimentar a minha curiosidade e partilhar momentos e experiências de amigos, no âmbito da minha rubrica diária na Rádio Amália sobre espaços museológicos - “Sei de um Rio, Sei de um Museu” … desafiei-os a escolherem um Museu e justificaram a sua escolha.

«Pago-te um café se me contares
o teu amor»
José Tolentino Mendonça

Não tinha cafés para oferecer … mas as respostas foram diversas e surpreendentes.

Suzana Silva, designer e artista plástica, viveu alguns anos nos Açores e, como tal, escolheu o último museu que visitou nesta Região Autónoma: O Museu do Vinho, na Ilha do Pico, pela sua história e pela forma como está inserido na paisagem;

Clara Macedo Cabral, escritora, vive em Londres, escolheu o Museu Victória & Albert, tendo realçado, entre muito acervo exposto, uma baixela portuguesa oferecida pelos reis portugueses à coroa britânica, como agradecimento pelo esforço desse país nas campanhas militares contra as invasões francesas no princípio do século XIX;

Judite Pita, artista plástica que trabalha com sedas, vive em Lisboa e escolheu o Museu de Arte Contemporânea – CCB e em particular a Coleção Berardo. Embora não saiba explicar bem as razões deste prazer, refere a importância das peças expostas, o museu, bem como o espaço para as poder apreciar;

Cleia Ribeiro, artista plástica que trabalha com tecidos, vive no Estoril e escolheu o Museu Geológico porque - “nos transporta para uma outra dimensão e atmosfera sobre a história da Terra, da presença do homem na Terra e para a história dos próprios museus”. Referiu também que é o museu dos museus, um exemplar único que todos deveriam visitar;

Izilda Galo, artista ceramista, que vive na Costa da Caparica, escolheu o Museu Calouste Gulbenkian, por ser uma viagem íntima e calma através da história da arte;

Paulo Venâncio, arquiteto e museólogo, vive em Lisboa escolheu a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, porque gosta de ir a este "Pequeno Grande Museu“ e quando o visita, cada quadro que observa novamente parece-lhe novo, transportando-o, para outros espaços, outras dimensões;

Johny Touzet, engenheiro, escolheu o Museu da Musica Mecânica. A justificação da escolha deve-se a nunca ter visitado este museu e ter muita curiosidade de o visitar;

Rui Baltazar, motard, escolheu o Museu do Campo Alentejano que está situado em Avis. Como amante e organizador de viagens de mota, optou por este espaço museológico dedicado ao campo alentejano e suas tradições, porque fica relativamente próximo de Lisboa e, segundo ele, tem acessos interessantes e fica próximo de bons locais para experimentar o riquíssimo património gastronómico alentejano;

Edmundo Cardeira, engenheiro e meu companheiro em muitas atividades de voluntariado, sugeriu o Museu do Vinho que fica em Alcobaça porque, para além do acervo, não tem filas de espera à entrada e é uma oportunidade para se ir a Alcobaça, ver o mosteiro e saborear a doçaria conventual nas várias esplanadas ali existentes;

Carlos Brito, engenheiro, sugeriu o Museu Arqueológico do Carmo que era uma igreja de Lisboa e integra hoje peças de valor histórico, arqueológico e artístico, numa cronologia ampla que contempla artefactos e obras desde a Pré-História à época contemporânea;

Aníbal Fernandes, engenheiro e natural de Miranda do Douro escolheu o Museu Britânico, em Londres, nomeadamente pela excelente coleção de obras de Michelangelo e Caravaggio;

Teresa Correia, especialista em Comunicação, minha conterrânea e colega de muitos anos nos Correios de Portugal (CTT), escolheu a Casa das Histórias de Paula Rego que fica em Cascais, por duas razões: a arquitetura exterior e a universalidade da obra de Paula Rego;

Catarina Silva, engenheira com quem trabalhei vários anos nos CTT, sugeriu o Museu Nacional de Arte Antiga que fica na Junqueira em Lisboa, realçando, no meio de muitas obras, os Painéis de São Vicente e as Tentações de Santo Antão;

Teresa Amador, madeirense e uma mulher ligada à cultura, sugeriu o Museu da Marioneta pelas atividades desenvolvidas ao longo do ano neste espaço museológico, particularmente a dos Bonecos de Santo Aleixo;

Isabel Amorim, professora e uma mulher super-disponível para a sua família e muito empenhada em ações de voluntariado sugeriu, como mulher do Norte, o Museu de Serralves, porque este espaço mágico é museu, é parque e é Alvaro Siza, o arquiteto da luz;

Sofia Arez, artista plástica com um profundo interesse pela natureza e com exposições em vários países da Europa e da Ásia sugeriu, como proposta da família e como viveram alguns anos no oriente, os Museus Naoshima e Teshima, que ficam no Japão, pelo espaço e pelo respeito às obras expostas;

Gabriela Perdigão Cavaco, museóloga, responsável pelo Centro de Arte Contemporânea, Casa da Cerca, que fica em Almada, sugeriu o Museu Nacional de Etnologia, detentor de coleções de etnologia únicas no mundo, é um espaço museológico que permite refletir sobre temas sociais e culturais emergentes do panorama contemporâneo.

Perguntar a alguns dos meus amigos as suas preferências museológicas, bem como as justificações das escolhas, foi uma experiência gratificante pela diversidade das opções, assim como pela riqueza das justificações que, confesso, me surpreenderam e enriqueceram.

Obrigado a todos os que contribuíram para esta partilha de conhecimento.

A arte devolve-nos qualquer coisa de nós?
Pelo menos interroga-nos, põe-nos em causa, diz-nos quem somos.
Dá-nos uma emoção diferente de todas as outras emoções.
Eduardo Lourenço (a 2017, em entrevista ao EXPRESSO)

António Acciaioli Campos