Cardus Edição 140, dezembro 2024
A Paula chegou a Angola pouco antes do 25 de Abril, o pai, movido por apertos da vida, resolveu tentar a sorte além-mar levando consigo a família, mulher e seis filhos, para o Huambo. Mas foi em Luanda, já depois da independência, que a conheci. Mais nova que eu dois anos, calhámos na mesma turma para terminar o secundário. Ela, uma jovem adolescente, eu, uma jovem, mas já casada. Assim que olhou para mim ligou o seu coração ao meu.
Muito animadas, não esgotávamos assunto e, todos os dias, tínhamos temas para arrazoar. Estávamos sempre juntas.
A vida foi-lhe pregando partidas, algumas muito duras. A primeira, tinha a Paula acabado de completar dezoito anos, o pai, que adorava, ficou muito doente e regressa a Portugal em tratamento. Não lhe conseguiu dizer o último adeus. A mãe e os irmãos ficam a seu cargo e é ela que lhes assegura o sustento, passando a dar aulas de matemática numa escola preparatória. Com uma resiliência sem igual, nunca a vi queixar-se ou dizer mal disto e daquilo, como é tão habitual na nossa cultura. Suspiros de contrariedades ou angústias também nunca lhos ouvi. De uma sensibilidade apurada, e educação extrema, nunca se permitiu desmanchar em laivos de arrogância, rudeza ou indelicadeza para com alguém.
Mesmo depois de perder o marido num acidente de viação, grávida de sete meses, limitou a sua profunda tristeza e dor às lágrimas e ao silêncio, sem dilacerar vivalma. Tinha 21 anos e nunca mais voltou a ter nenhum relacionamento porque não queria arriscar sujeitar a filha, fruto do seu casamento com um angolano negro, a eventuais constrangimentos, por ínfimos que pudessem ser.
Sempre me interroguei como era possível viver infortúnios desta natureza sem espernear ou barafustar.
Esta “aceitação” do “destino” deixava-me estupefacta! A aproximação a esta mulher foi construída ao longo dos anos pelo fascínio que ia gerando em mim. Fascínio pela sua forma de estar na vida, pela sua postura, nobre, perante as situações agrestes e adversas da vida. Pela sua abertura à diversidade humana, nunca lhe reconheci preconceitos, tratando todos com a mesma doçura e respeito de forma genuína e sem julgamentos.
Ainda em Angola, vivemos juntas as dificuldades do dia a dia, num país que dava os primeiros passos da sua autonomia. Expectantes por um futuro melhor, acreditámos que as nossas vidas se iriam arrumar por ali e, por isso, não nos juntámos à onda que trouxe os portugueses de volta. Os anos que se seguiram, ainda bastantes, serviram para desembrulhar toda a essência acatada em cada uma de nós, o que reforçou ainda mais uma união que nunca se desenlaçou.
Goradas as expectativas de um amanhã promissor, num espaço de curta diferença, viemos para Portugal onde continuamos o nosso percurso, sempre juntas e apoiando-nos uma à outra em todas as ocasiões.
A Paula sempre foi uma inspiração. É uma das mulheres mais importantes da minha vida. E esta importância não se resume só à amizade existente, todas as emoções, histórias e experiências vividas estão cravadas nos cantos mais recônditos do meu ser. Vivem em mim.
(Continua)