Cardus Edição 139, novembro 2024
A vida é uma viagem, como as de comboio, onde em cada estação entram e saem pessoas. Mas há as que ficam, não saem e, por vezes, vão até à última paragem. E também há as que, ficando ou não por muitas estações, deixam a sua presença marcada em todo o caminho. É destas que vou falar, das mulheres que ao longo da minha vida foram muito importantes para mim. Não as mulheres de ligação familiar como a mãe, irmãs, tias ou primas, que, sem dúvida, deixam em nós um pouco delas próprias, mas mulheres com que me fui cruzando em diferentes contextos e em diferentes fases do percurso. Vou seguir uma ordem cronológica e falar de cada uma em particular. Vou começar pela primeira, a D. Irene.
Tinha onze anos quando a conheci. Jovem, acabada de se casar por procuração, chegou da metrópole trazendo na mala todos os sonhos por concretizar. Sacudindo-se de mentiras e de desilusões, foi na minha casa, onde o marido estava hospedado, que começou a sua nova vida. Só no aeroporto se apercebeu que, afinal, a condição imposta para assumir o compromisso de uma vida a dois - uma casa - estava embrulhada em promessas não cumpridas. E, assim, os primeiros tempos não tiveram o doce nem o sabor do mel. A lua e as estrelas nunca brilharam.
Recomposta pelo tempo das patranhas do marido, rapidamente se fez à vida, começando por organizar o dia-a-dia com diferentes atividades enquanto procurava emprego. A pouco e pouco fui-me aproximando dela por me atrair a sua forma de ocupar as horas que nunca deixou serem vagas. Com ela aprendi a fazer bolos, crochet, a bordar, a fazer pequenas costuras, como apertar, transformar ou refazer peças de roupa já gastas ou fora de uso, entre outras manualidades. A minha admiração ia crescendo à medida que trocava a minha meninice pela adolescência e me transformava numa jovem com sonhos de mulher. Habituada a um regime familiar pouco estruturado, onde o laisser faire era a dominante, foi com ela que percebi que o dia só tem 24 horas e que pode ser gerido com propósito. Esta mulher manteve-se na minha vida por mais de quinze anos. Objetivos, foco, determinação e organização eram os ingredientes constantes do seu modus vivendi. Conseguia transformar espaços sem graça em recantos airosos e acolhedores, como o belo jardim que construiu no quintal da sua casa, num musseque de Luanda, onde latas e vasos improvisados se engalanavam com as mais viçosas flores. As paredes brancas, pintadas por ela, os objetos meticulosamente arrumados, os armários e restante mobília a brilhar de asseio, os naperões e as toalhas bordadas, refletiam toda a criatividade que esta mulher segurava na alma. Sempre ativa e alegre, tinha o tempo por sua conta.
Mas, a par de tantas qualidades, que sempre me fascinaram e que tiveram tão grande importância na minha vida, a D. Irene também tinha um lado menos colorido, não era contida nem afetuosa nos dizeres, chegando até a ser grotesca nas suas críticas. Presença assídua até aos meus vinte e muitos anos dava-me “descascas” quando me via mal-arrumada ou com a casa de pantanas. Não aceitava desculpas, prontificando-se logo a comandar operações.
Parte de mim tem marcas desta mulher e passados tantos anos ainda é o Bolo da D. Irene a iguaria mais requisitada nas festas de aniversário ou almoços de domingo.
(Continua)