Cardus Edição 138, outubro 2024
O telefone tocou manhã cedo a agoirar notícia indesejada.
Sem alarido, na calada da noite, sentiu-se mal, encostou-se ao móvel do hall e lentamente foi partindo. Estava sentado no chão, de olhos fechados e ar sereno como se a viagem fosse longa e precisasse de se recostar.
Para trás ficou uma caminhada cheia de histórias, muitas por contar e outras tantas vividas. Sempre pacato e muito discreto, levou uma vida de entrega ao trabalho e à família, até ao fim. Não lhe eram conhecidas extravagâncias e só ultimamente ultrapassava, em uma ou duas, o número recomendado, diário, de cervejinhas. Fruto de uma educação militar, nunca se permitiu escorregar, falhar ou errar. Rotineiro nos afazeres, era na sua garagem, transformada em autêntica oficina/ateliê, que gostava de passar os dias. Especialista em mecânica, não havia carro, mota, bicicleta ou relógio avariado que ficasse por consertar. Filhos, netos e amigos era para lá que corriam sempre que uma máquina deixasse de funcionar. Dava gosto entrar naquele espaço, meticulosamente arrumado e organizado, onde tudo tinha lugar reservado. Depois de se reformar, passou a ser aqui o seu posto diário, sempre ocupado em trabalhos vários.
Encarava o dia-a-dia sem queixumes e raramente se atrevia a trilhar os caminhos das exigências. Os sonhos, guardou-os para si e nunca ninguém os conheceu. A família era o leme do seu barco, foi para a família que viveu. Homem alto e de aspecto decidido, tinha na honestidade e nos seus princípios o pilar da verticalidade. Não era muito falador, as atitudes falavam por si. Trocou respeito e consideração com os demais em toda a sua vida, nunca brigou com ninguém.
Vivia com a mulher, a sua companheira de há mais de sessenta e cinco anos, agora com Alzheimer e de quem tratava em todas as horas e minutos do dia, muito cansado mas sem reclamar.
A sua generosidade estendeu-se também na morte: doou o corpo à ciência e não houve funeral.
Partiu dia 11 de Setembro.
Caiu uma torre.