Cardus Edição 137, setembro 2024

Malisca

O Luke

ID 32495204 © Isselee | Dreamstime.com

Com a criançada toda atrás, alegres e aos pinotes, lá fomos, ao final da tarde, de passeio ao Parque para apreciar as novidades anunciadas, beber uns sumos e comer farturas.

Ainda não tínhamos virado a primeira esquina nem começado a descer a escadaria que vai até à última fiada de casas, quando os dois mais novos pararam e deram o alerta: está aqui um passarinho!

Corremos todos até lá, assustando o bicharoco que começou a saltitar de um lado para o outro a querer fugir. Muito encolhido no cantinho que encontrou, percebemos que ainda não sabia voar mas que a penugem começava já a dar lugar a algumas penas. Resolvemos continuar viagem, combinando que na volta, se ele ainda ali estivesse, o levaríamos para casa.

No Parque, os preparativos e montagens para os diferentes eventos ainda se faziam notar pelo que não nos prendemos por lá muito tempo. Meia volta e rodámos em direção a casa, subindo a rua em passo acelerado movidos pela curiosidade de saber se o bicharoco ainda lá estava. Estava.

Com o entusiasmo a rasgar caminho, principalmente o das duas crianças e o dos dois adolescentes, todos nos empenhámos no zelo e cuidados a ter com o passarito. Estava montada uma equipa de socorros. Entre zaragatas, discussões e  consultas ao dr. Google, o melro bebé, batizado de Luke,  foi acomodado numa caixa de cartão e alimentado com sementes, farinha de milho e fruta.

Oito pessoas à  volta do Luke, com os habituais bitates, assumiram tarefas para se  revezarem ao longo do dia: levar  a  caixa de cartão para o terraço logo ao nascer do sol, fazer a papa e alimentá-lo várias vezes ao dia, recolher a caixa à noite e levá-la para a despensa da cozinha… assim foram os primeiros dias até se perceber que o Luke, logo que era libertado começava a piar e em segundos tinha a mãe empoleirada no muro com minhocas no bico a ensaiar acrobacias para lhe chegar. Ficámos todos encantados com a mãe natureza, nem acreditávamos no que estava a acontecer. Como era possível, passados dois ou três dias a mãe andar ali por perto, estando o ninho, de onde saiu, longe da casa, e responder ao chamado através de uns simples pios!!!

Uma semana e meia depois, já o Luke saltitava a tentear o voo, redondinho de gordo e com as penas a ganhar forma, era a mascote da família que o apresentava de imediato sempre que havia visitas. Os miúdos, sempre atentos, tentavam aproximar-se para lhe pegarem e ganharem intimidade e há um dia que o Luke se empoleira no braço do mais velho. Alegria total, festa, fotos e telefonemas aos ausentes.

Tudo corria bem, a expectativa de o ver a voar era grande, a mãe continuava a alimentá-lo pelo dia fora e as cagadelas, mais que muitas, no terraço, faziam a avó refilar todos os dias.

Nesse mesmo dia, depois das fotos correrem por todos os telemóveis em forma de partilha e de terem regressado de um dia de praia, fez-se fila para ver se o Luke repetia a graça de subir para o braço de alguém. Nesta investida, quando os dois mais velhos tentavam a proeza, lá fora no terraço, ouvimos na cozinha um som de batida forte no chão ao mesmo tempo que sentimos uma seta dilacerante a atravessar-nos o coração. Num ápice saltámos todos da mesa, à nossa frente o Luke estava inanimado no chão. Olhámos todos uns para os outros, em choque, de respiração contida e de lágrimas nos olhos. Entre a ânsia de perceber o sucedido e as tentativas de o reanimar, uns minutos depois voltou a si. Os suspiros de alívio fizeram-se ouvir alto e em uníssono, tudo parecia agora normal e o Luke foi levado para o seu aposento nocturno como habitual, a despensa.

Entretanto, no quarto, de porta fechada e de luz apagada, a jovem adolescente chorava, martirizada com o peso de culpa, achando que por incúria teria provocado a queda do Luke.

Ao outro dia de manhã, a primeira a acordar, e a correr direta à despensa, foi a avó. Com um nó na garganta viu que o passarinho estava caído, a respirar com dificuldade, estava a morrer.

Um por um, foram-se todos inteirando da má sorte à medida que iam acordando. Com o sabor amargo da desilusão, a chorar por dentro, cruzaram olhares em busca de explicações que ninguém tinha para dar.

O Luke foi enterrado no jardim, entre lágrimas, rosas e silêncio. Com ele ficou a grande ruma de afeto que criou em todos nós. Em apenas semana e meia.