Cardus Edição 135, julho 2024
Quando vou para a cozinha fazer bolos e me misturo com as taças, as formas, as farinhas, os ovos, o açúcar e demais ingredientes, visita-me logo o pensamento a Júlia Camanamana.
A Júlia morava a caminho da Humpata, arredores da cidade da Huíla, fazia bolos de manhã à noite para vender.
E lá estava ela de vestido longo, a dançar-lhe no corpo, com a filharada mais nova agarrada às pernas ou em correrias à sua volta. Tinha também filhas que a ajudavam, raparigas jovens e adolescentes sempre alegres e de sorriso fácil. Uma família mestiça, cheia de vida e de cor, ela ainda pertencente à tribo Mamuíla, ele português do Minho, os filhos tinham o bronze espelhado na pele.
O cheiro doce que se libertava do forno a lenha, no quintal, entranhava-se em quem se aproximasse da casa. A mim, colou-se às paredes da memória que, juntamente com as paisagens envolventes do percurso até lá, fizeram do meu coração morada permanente.
Criança pequena, ia muitas vezes com a minha mãe aos bolinhos para trazer para casa.
Ficava a uns quilómetros do nosso bicanjo, estrada de terra batida com a Serra da Leba à espreita.
Por vezes guardávamos tempo para visitar o parque da Nossa Senhora do Monte que não ficava longe. A piscina enorme, a capela engalanada de flores, a escadaria imponente, os jardins aprumados, os baloiços coloridos e a floresta majestosa ofereciam um espaço convidativo a passeios e piqueniques que se tornavam inesquecíveis. Os porquinhos da Índia do parque infantil deixavam-me extasiada de fascínio, acreditando mesmo que nada mais lindo e amoroso pudesse existir à face da Terra.
Por vezes o passeio estendia-se para os lados do Tchivinguiro, onde as encostas se transformavam em pinturas ao vivo, enfeitadas com cascatas e grutas, cujas lendas deixavam todos a acreditar que um dia encontrariam um tesouro. Mais tarde se percebeu que estas grandiosidades da natureza eram o próprio tesouro que ficou nos nossos corações.
Ainda criança, deixei a cidade, e também estes lugares, para nunca mais voltar.
Passaram muitos anos, a Júlia Camanamana já não existe, mas os seus bolos e todo o cenário nela centrado estão bem presentes, continuam a viver em mim.