Cardus Edição 133, maio 2024

Malisca

Brincadeira Falhada

Ilustração 152893977 © Jemastock | Dreamstime.com

Nas férias grandes de verão lá vinham os dois gémeos passar os dias em casa dos avós enquanto os pais estavam a trabalhar. Muitas vezes juntava-se o primo, um ano mais novo, e as brincadeiras multiplicavam-se pela tarde fora. Sempre bem-disposto e com doçura no coração, alinhava em todas as propostas de sorriso pronto e com muita alegria. Era o caçula da família, os três irmãos, mais velhos, tinham entre dez e quinze anos mais que ele e, por isso, estar com a prima e o primo era uma festa.

Numa tarde soalheira, depois de muito divertimento e flostria, a avó, munida de pretensões e intuitos pedagógicos resolveu fazer um jogo com eles. Curiosos e expectantes, sentaram-se logo à volta da mesa da cozinha muito atentos às regras alinhadas: perguntas e respostas só em inglês.

E o jogo começou. A avó, à vez, foi cruzando temas diversos, as crianças entusiasmadas lá iam tentando responder, muito concentradas em perceber a pergunta e muito empenhadas na procura das palavras para a resposta. Tudo corria numa amena diversão quando, esquecendo-se que ao seu redor nenhuma das três crianças tinha atingido uma década de vida, a avó, já sem criatividade para assuntos mais lúdicos, resolveu enveredar por caminhos tortuosos, desejosa de avultar dicas que servissem de estopim de consciências e que abrissem portas à reflexão.

De repente, o mais novo viu-se metralhado com um batalhão de perguntas sobre os seus préstimos nos afazeres domésticos do dia a dia como contribuição para o apaziguamento do cansaço da mãe depois de vir do trabalho.

Convencida de estar a fazer um brilharete, sem se dar conta que o momento se tinha enublado completamente e que o miúdo estava a entaipar de aflição, continuou a disparar um chorrilho de questões de dedo estendido e num tom a roçar a crítica e a chalaça.

Só quando o silêncio encheu o espaço e a criança começou a engolir lágrimas, num sofrimento atroz por não ajudar a sua mãe, é que a avó cai em si e se apercebe da barbaridade cometida.

Às vezes não é o que se diz que magoa, mas sim a forma como se o diz.