Cardus Edição 132, abril 2024

Malisca

(aline.serra.cardeira@gmail.com)

Land Rover: um marco na sua vida

Toda a gente tem um objeto, uma música, um lugar ou um outro marco nas suas vidas: o dela é um Land Rover. Um jeep, em forma de cubo, verde acinzentado que transportava sete ou oito pessoas à vontade, três à frente e quatro ou cinco atrás, num compartimento amplo e aberto com bancos laterais. Mais apertadinhos ou não, sem cintos de segurança e com espaço para estender as pernas, fez grandes e longas viagens, da Jamba para Nova Lisboa (Huambo), de Nova Lisboa para Sá da Bandeira (Huíla), do Lobito para Luanda, entre muitas, muitas outras. Para lá e para cá, eram viagens carregadas de aventura e emoções, de tal forma fortes que ainda vivem colados na sua memória.

Os percursos eram feitos com várias paragens e tinham o seu início sempre de madrugada, antes do sol nascer. Estrada fora, pouco tempo depois, o sol entrava pelas janelas e, com as suas lambidelas na cara, abanava-lhe a sonolência de uma noite mal dormida ao mesmo tempo que tornava visíveis paisagens deslumbrantes. O branco das flores do algodão a cobrir espaços estendidos até ao horizonte fazia lembrar mantos de neve em terras polares. Plantações de girassóis, viçosos e airosos a oferecer o seu doirado ao sol, davam lugar, quase de seguida, a grandes campos de sisal com os cabelos ao vento ou a grandes filas de ananases empoleirados no charme das suas coroas. Todo o caminho se compunha de cenários únicos que África guarda e nos presenteia.

Outros momentos altos do dia eram as paragens para as refeições. Preparado de véspera, o farnel era apetrechado com iguarias feitas em casa pela mãe, exímia cozinheira. Os rissóis, os pastéis de bacalhau, a bola de carne, os croquetes, as sandes de carne assada, as pataniscas ou os peixinhos da horta eram normalmente as opções escolhidas. Bem acondicionados em tachos envoltos nos tradicionais paninhos brancos bordados, perfumavam o interior do Jeep e deixavam adivinhar deliciosos sabores.

As viagens eram com a família e pressupunham normalmente afazeres inadiáveis. E houve uma que marcou para sempre a sua vida. Avizinhava-se o casamento do irmão mais velho e os preparativos não se fizeram esperar. Marcado o dia da partida, juntou-se também à família um jovem amigo e colega do noivo e lá foram todos de Luanda para Nova Lisboa no Jeep.

Ele, a fervilhar de juventude, ela, uma jovem cheia de sonhos, foram todo o caminho encostadinhos um ao outro, de mãos dadas, com um chapéu por cima para ninguém ver.

Sempre que vê um Land Rover antigo, o coração acelera e toda a emoção vivida se repete no seu pensamento.

Hoje, já velhinhos, ainda dormem de mãos dadas.