Cardus Edição 131, março 2024

Malisca

(aline.serra.cardeira@gmail.com)

VIVER É NÃO CONSEGUIR



Ao vê-la rodeada das suas crianças, alegres, brincalhonas, barulhentas e aos pulos, perguntaram-lhe o que desejava para os filhos quando crescessem. Perentória e sem hesitações atirou: quero que sejam felizes e que sejam boas pessoas!

Depois de algumas décadas, a mesma pessoa quis saber se os seus desejos se tinham concretizado.

Puída pelo tempo, desgastada pelas intranquilidades e amargurada pelo desfecho da sua feitura enquanto mãe e educadora, não teve dúvidas na resposta e o seu não enorme, redondo e inchado de emoção saiu como um foguete, não daqueles que se abrem no céu a jorrar luzes coloridas e cintilantes como se fossem estrelas dançantes, mas sim um foguete com estrondo, a rebentar e a espalhar no ar os estilhaços da sua bomba de tristeza. Não, os seus filhos não se tinham tornado boas pessoas nem pessoas boas. Um para cada lado, todos na sua vida, não tinha conseguido construir uma família unida como aquelas que se veem nos filmes e se leem nos romances!

Embrulhada na sua carreira profissional e na lufa lufa dos afazeres diários, não se apercebeu que estavam todos a crescer rápido demais, a viver os seus dias às avessas e de costas voltadas. Não brincavam juntos, não tinham amigos comuns, não gostavam das mesmas coisas e, sobretudo não gostavam de gostar uns dos outros. Preocupados em mostrar a sua supremacia, quer na escola, quer em casa, quer com os amigos ou com os outros, os filhos cresceram com o foco de vencer, interiorizando profundamente os ensinamentos da concorrência doentia que iam aprendendo na escola, na sociedade e até na própria família.

Olhando para trás, sentia agora o embaraço da culpa, deixando-se minar pelo arrependimento: se fosse hoje faria tudo de maneira diferente! Antes de ensinar a lavar os dentes, as primeiras letras e as contas de subtrair, iria ensinar a multiplicar o amor pelo outro, a somar felicidade na partilha e a dividir as tristezas e alegrias.

Ainda assim, como diz Fernando Pessoa no seu poema:

Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.

Depois de ficar e ir
Hei-de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.

Viver é não conseguir.