Cardus Edição 130, fevereiro 2024
Corria setembro do ano de oitenta e dois quando se deu a grande mudança.
Angola deixou de os abraçar assim que se emancipou e, por muito que a separação lhes alvoraçasse as almas, era hora do adeus.
Os trapos, tinham-nos juntado havia pouco tempo, quando acreditavam no amanhã com toda a força da juventude. Mas o futuro não tardou a mostrar-se espantadiço e os caminhos, agora incertos, mostravam-se sem estrada para andar.
Resistiram sete anos, fintados por uma esperança que se ia alimentando de perseverança, de ilusões e de desafios. Os filhos foram nascendo, ano sim, ano sim e já eram três. As condições estavam longe de serem as mínimas porque os alimentos e os produtos de primeira necessidade raramente se faziam aparecer. As escolas, os infantários, os hospitais, entre outos serviços, deixaram de funcionar, não só por falta dos imprescindíveis técnicos, mas também pela falta de todo o tipo de recursos como água e eletricidade, entre outros bens.
De abundância havia a sorte e o calor, sempre de mãos dadas, como numa roda, até ao fim. A sorte impediu os azares de lhes baterem à porta, mas o calor empestou as casas de baratas que, às centenas, se passeavam nos esconderijos das salas, das cozinhas, dos quartos e das varandas. Nunca conseguiram dar conta delas e ainda hoje ficam de estômago alvoraçado quando se lembram do dia em que o mais pequenito, guloso e sempre cheio de apetite, estava sentado na varanda, no chão, a trincar um ovo deste ortóptero, confundindo-o com um pedaço de chocolate.
As vindas a Portugal faziam-se anualmente em férias e, de cada vez que voltavam, sentiam que estavam a perder oportunidades, todas, principalmente as que precisavam para cimentar os muros da família em construção. E, por isso, em 1981, resolveram comprar um apartamento, em fase final de acabamento, para no ano seguinte se poderem mudar de vez e recomeçar uma nova vida.
Os últimos doze meses, na terra que os viu nascer e crescer, foram de despedida, doze meses longos com sabor a eternidade e a ausência. De coração e alma presos no sonho da nova casa, a vida centrou-se na mudança que se avizinhava e ficou estagnada na espera de vir embora.
Tudo girava à volta do mesmo, todos os dias se desembrulhavam conversas alvitrando preferências e opções de decoração, o que nem sempre era consensual e que acabavam, muitas vezes, em grandes imbróglios e discussões. A casa, entretanto, já pronta, mantinha-se sóbria, inócua, fechada, no mesmo lugar, aguardando a chegada da família.
Durante essa longa espera, os dias iam-se passando melhor a delinear mentalmente projetos de decoração, imaginando móveis e cortinados de todas as cores e feitios. Sem nenhuma cópia da planta da casa, numa época em que as comunicações eram muito limitadas e as videochamadas não existiam, deixaram os sonhos distribuírem-se por todas as assoalhadas que compunham o futuro ninho.
O dia da partida chegou finalmente, imbambas embaladas, a ida para o aeroporto, muito antes da hora, foi no Volvo azul-escuro, grande e espaçoso, carro da empresa que um colega viabilizou. Da janela, enquanto seguiam caminho, que teve início na Rua Joaquim Kapango, entre a Sagrada Família e as Ingombotas, onde moravam, rumo ao destino, para lá da Maianga, despediram-se com o olhar, numa dança de tristeza e de alegria, confundidas pelo adeus e pela aventura da mudança.
Lisboa recebeu-os numa manhã fresca de final de verão, complacente com o mistifório de sentimentos que todos vestiram em resultado do cansaço da grande viagem e da excitação de abraçar o novo lar.
Prédio novo, cheiro a tinta, cartões espalhados no chão da entrada, pó a espreitar pelas escadas, o silêncio ouvido deu a entender não haver ainda muitos vizinhos a residir. Não couberam todos no elevador, não por terem engordado de euforia, mas porque só transportava duas pessoas de cada vez. A correr pelas escadas, foram as crianças as primeiras a chegar. Aberta a porta, a respiração suspende-se e o coração acelera, pula e salta. Um momento de emoções fortes que se atarraxou à memória e que até hoje nunca se descolou.
Mas, quando os olhos se atiraram para os cantos da casa, tudo parecia minúsculo e diferente daquilo que foram idealizando durante o longo ano de espera. À medida que foram sonhando, o tempo e a imaginação encarregaram-se de distorcer a realidade de todas as divisões.
A casa tinha encolhido.