Cardus Edição 140, dezembro 2024

HISTÓRIA (Guerra Colonial)


Carapito

Neste sétimo artigo vamos fazer uma necessariamente resumida história da UPA/FNLA e do seu presidente Holden Roberto, uma breve abordagem ao seu papel na guerra colonial e ao seu apagamento progressivo no pós-independência.

Vamos também, como foi dito no artigo anterior, dar uma ideia mais abrangente dos acontecimentos do 4 de Fevereiro de 1961, deixando para o próximo artigo, uma descrição mais pormenorizada do evento porventura mais traumático da Guerra Colonial: os massacres de 15 de março de 1961 no Norte de Angola

António Carapito escreve de acordo com a antiga ortografia




Início das Guerras Coloniais - Angola 1961 (3)


  1. UPA/FNLA União dos Povos de Angola/Frente Nacional de Libertação de Angola

A UPA foi, dos três históricos movimentos de libertação de Angola, o primeiro a levar a cabo uma ação armada relevante contra a presença portuguesa em Angola. Como vimos anteriormente, os acontecimentos de 4 de Fevereiro em Luanda foram o “evento inaugural” de luta armada contra a presença colonial portuguesa em África, mas o seu limitado impacto, circunscrito à capital, não é comparável à generalizada violência genocida que assolou todo o Norte de Angola na noite de 15 de Março de 1961. Da responsabilidade da UPA, esses acontecimentos, pela sua extensão, mas sobretudo pela natureza primitiva da chocante violência, tiveram repercussão mundial, levando esse movimento, numa fase inicial, a negar a sua paternidade.

Génese e Presidência da UPA

A fundação oficiosa ocorreu numa reunião na cidade de Matadi em Julho de 1954, com a presença de Manuel Barros Necaca, João Eduardo Pinock e Francisco Lulendo, com a finalidade de disputar a sucessão ao trono do Reino do Congo, após a morte do rei Pedro VIII. Entre os candidatos, aparecia Álvaro Holden Roberto

A UPA foi oficialmente fundada em Outubro de 1954, na cidade de Léopoldville (actual Quinxassa), com o nome de UPNA, União dos Povos do Norte de Angola, mudado quatro anos depois, em Dezembro de 1958, durante a I Conferência dos Povos Africanos, por influência de vários proeminentes líderes africanos de então, (Julius Nyerere, Houari Boumédiène e Kwame Nkrumah entre outros), para UPA, no sentido de eliminar a conotação tribal do nome original. Estes líderes convenceram a UPA a adoptar o nacionalismo, abandonando o tribalismo bacongo que a caracterizava. Com a morte de Barros Necaca, tio de Holden, (com quem exercia a vice-presidência do partido), é convocado um congresso em Janeiro de 1961 e Holden Roberto assume a presidência da UPA.

Em 1962, a UPA absorveu o Partido Democrático de Angola (PDA) e formou a Frente Nacional de Libertação de Angola, FNLA.

Holden Roberto, de nome completo Álvaro Holden Necaca Roberto Diasiwa, nasceu em M'Banza Congo em 12 de Janeiro de 1923 e faleceu em Luanda em 2 de Agosto de 2007.

Com dois anos de idade, a família mudou-se para Léopoldville, cidade capital do então Congo Belga. Em 1940 concluiu o ensino secundário numa escola da Sociedade Missionária Baptista Britânica e torna-se funcionário do regime colonial belga durante 8 anos. Em 54, após a fundação da UPNA, começa propriamente a sua carreira política. Participa na acima citada I Conferência dos Povos Africanos, segundo algumas fontes, também como agente da CIA para quem colecta informação privilegiada. Nessa Conferência conheceu Patrice Lumumba, futuro primeiro-ministro da República Democrática do Congo, Kenneth Kaunda, futuro Presidente da Zâmbia, o nacionalista queniano Tom M´boya e o filósofo marxista Frantz Fanon.

Discute no início de 1961, com Amílcar Cabral, Lúcio Lara e Viriato da Cruz, a formação de uma frente única de luta anti-colonial, a Frente de Libertação de Angola, FLA. No ano seguinte forma o Governo Revolucionário de Angola no Exílio, GRAE, cujo Ministro dos Negócios Estrangeiros era precisamente Jonas Malheiro Savimbi, como vimos anteriormente.

Em Março de 1961, ordena em toda a zona norte de Angola, uma ação armada contra a estrutura colonial, mas também e sobretudo contra populações civis, brancas e negras. As imagens de uma violência bestial, correram mundo e provocaram reações tão condenatórias que Holden Roberto só reivindicaria a responsabilidade dos massacres, algum tempo depois. Essa mesma violência acabaria por fornecer a Salazar a justificação para a repressão militar que se seguiu, igualmente extrema.   

A UPA/FNLA nunca conseguiu, quer no Norte, quer no Leste de Angola, durante toda a duração da Guerra Colonial, grande expressão militar. As dissensões internas, confrontos armados com o MPLA e mais tarde com a UNITA, enfraqueceram o Movimento, a um nível por vezes paralisante. Logo depois da independência, há um forte ressurgimento da FNLA, com o apoio da República do Zaire e de Mobutu, mas a entrada dos cubanos, ao lado do MPLA, nos combates da guerra civil que se seguiu, pulverizou o Exército de Libertação Nacional de Angola, ELNA, a estrutura militar da FNLA, que nunca mais se reergueu. Hoje a FNLA praticamente não tem expressão política em Angola.

Ideário

A FNLA e o MPLA acabaram por traduzir, no contexto da luta armada de libertação nacional, todas as contradições da Guerra Fria. John Kennedy e os EUA apoiaram e apostaram fortemente na FNLA e em Holden Roberto, pró-ocidentais e a URSS deu suporte permanente ao MPLA e a Agostinho Neto, pró-soviéticos. Os confrontos armados que antes e depois da independência, opuseram os dois Movimentos, tinham por trás questões ideológicas, mas também e sobretudo, a vontade hegemónica dos seus patrocinadores. O regime colonial, soube sempre, de forma eficaz, explorar estas divergências. Pode-se afirmar sem receio de erro, que boa parte do esforço de guerra de ambos, foi dirigido contra si próprios, quer no Norte, quer no Leste de Angola. Em 1972 li, por diversas vezes, descrições contidas em documentos confidenciais, dos violentos combates entre ambos e das inenarráveis sevícias infligidas aos infelizes dos dois lados, caídos prisioneiros.

 Os Acontecimentos do 4 de Fevereiro de 1961 em Luanda

Como se disse anteriormente, a responsabilidade ou paternidade destes acontecimentos, que para muitos marcam o início das Guerras Coloniais, é ainda hoje objecto de controvérsia.

Há quem atribua a incipiente organização ao Cónego Manuel das Neves, havendo de facto indícios nesse sentido. O que é facto é que logo após a sua ocorrência, o MPLA, pela voz de Mário de Andrade, Viriato da Cruz e Lúcio Lara, reivindicaram a responsabilidade e autoria dos acontecimentos.

No mês anterior, em 6 de Janeiro, tiveram início as operações militares do Exército Português, contra os trabalhadores grevistas da Cotonang, na Baixa de Cassange, que ficaram conhecidos como o Massacre de Cassange. Em 20 de Janeiro, toma posse como 35º Presidente dos Estados Unidos da América, John Kennedy, visto na altura como simpatizante dos movimentos emancipalistas africanos. Em 22 de Janeiro, dá-se o assalto ao paquete Santa Maria, que abalou fortemente o regime e prejudicou as relações com o Brasil e EUA. Acresce que no início de 61, já se sabia que a UPA preparava algo de grande envergadura no Norte de Angola. Estes eventos devem ter tido influência no despoletar da revolta de Luanda, já que a conjuntura era muito favorável.

Na madrugada de 4 de Fevereiro, grupos de revoltosos armados de catanas, cerca de 200 homens, sob o comando de Neves Bendinha, Domingos Manuel Mateus, Paiva Domingos da Silva e Imperial Santana, dispersaram-se por Luanda atacando objectivos da estrutura colonial portuguesa. Depois de atacarem de emboscada uma patrulha da Polícia Móvel e terem morto quatro polícias a quem capturaram as armas, tentaram com elas tomar a Casa de Reclusão Militar, onde se encontravam os presos políticos do Processo dos 50(*), que pretendiam libertar e que, segundo rumores, iriam em breve ser transferidos para o Tarrafal. Outros grupos atacaram a cadeia da PIDE no Bairro de S. Paulo e a cadeia da 7ª Esquadra da Polícia de Segurança Pública na estrada de Catete. Foram ainda atacados o edifício dos Correios e tentada a ocupação da Emissora Oficial de Angola.

Estes, os objectivos puramente “militares” da revolta. Os outros, tão ou mais importantes, tinham um carácter político extremamente importante. Nesse mês estavam em Luanda dezenas de jornalistas estrangeiros que aguardavam (e pretendiam cobrir) a chegada do paquete Santa Maria, (desviado por Henrique Galvão, feroz opositor de Salazar), cujo destino final se pensava ser a cidade. Estava, portanto, assegurada a cobertura internacional da revolta, a que se juntou a denúncia dos massacres em Cassange, cujas operações ainda decorriam nos primeiros dias de Fevereiro e se estenderam até Março.

Praticamente nenhum dos objectivos “militares” foi atingido, mas do ponto de vista político, a ampla cobertura jornalística internacional, fez com que a atenção mundial se voltasse para Angola. Os amotinados sofreram 15 baixas e fariam nova tentativa no dia 10 de Fevereiro, atacando a Administração Civil de S. Paulo e a Companhia Indígena. O balanço foi ainda mais negativo para os revoltosos, mas o objectivo principal estava conseguido: chamar a atenção da comunidade internacional para a situação colonial em Angola

(*) Processo dos 50: Esta designação refere-se a um conjunto de 3 processos políticos, instaurados pela PIDE, que tiveram início em 29 de Março de 1959, com a prisão de vários nacionalistas angolanos. Joaquim Pinto de Andrade, enviou ao seu irmão Mário Pinto de Andrade que vivia fora de Angola, uma carta denunciando a prisão de 50 proeminentes nacionalistas angolanos. Este fez a denúncia internacional destas prisões, contrariando o objectivo da PIDE de as manter secretas. A intenção de transferir estes prisioneiros para o Tarrafal, teve uma influência importante no despoletar do 4 de Fevereiro   

(Continua)