Cardus Edição 139, novembro 2024
Neste sexto artigo, vamos avançar na breve apresentação dos dois restantes movimentos de libertação de Angola, utilizando o critério anteriormente definido, o da importância que cada um acabou por ter no pós-independência dessa ex-colónia. A UNITA, União para a Independência Total de Angola, embora tendo surgido uns anos depois da FNLA, fundada por um ex-quadro dissidente deste movimento, Jonas Savimbi, acabou por ser determinante nos rumos da jovem nação nos quase trinta anos subsequentes à independência de Angola em 11 de Novembro de 1975.
No próximo artigo, dada a “pobreza histórica” da UPA/FNLA e do seu líder, Holden Roberto, terminaremos a caracterização dos três movimentos emancipalistas e abordaremos os acontecimentos de 4 de Fevereiro, que como vimos anteriormente deram início às Guerras Coloniais
António Carapito escreve de acordo com a antiga ortografia
A Unita foi fundada em 13 de Março de 1966 por dissidentes da UPA/FNLA, entre eles o seu primeiro presidente, Jonas Malheiro Savimbi.
Savimbi foi uma figura absolutamente singular no panorama do nacionalismo angolano. Integrou como Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Governo Revolucionário de Angola no Exílio (GRAE), da UPA/FNLA, mas sendo um homem demasiado inteligente e ambicioso para se contentar com um papel secundário, rompeu com Holden Roberto, fundou a sua própria organização político-militar, que chefiou com mão de ferro, até à sua morte em combate em 2002.
Génese e Presidência do Movimento
Jonas Savimbi nasceu no Munhango, Província do Bié, em 3 de Agosto de 1934, filho de Lotte Malheiro Savimbi, um funcionário do Caminho de Ferro de Benguela, também pastor da Igreja Evangélica de Angola e de Helena Malheiro Savimbi, doméstica. Fez os estudos primários dentro da estrutura educacional da Igreja Evangélica (IE) e os secundários no Huambo, numa escola dos Irmãos Maristas. Segundo a biografia oficiosa, tentou estudar medicina em Lisboa, não o tendo conseguido por razões políticas. Em 1960 refugiou-se na Suíça e com a ajuda da IE conseguiu uma bolsa de estudos, tendo cursado Ciências Políticas na Universidade de Friburgo. Neste período conheceu Holden Roberto que o convidou a integrar a UPA, com intermediação de Jomo Kenyatta, primeiro Presidente do Quénia, no início da década de 60.
A UPA formou um governo no exílio, como se disse atrás e Jonas Savimbi assumiu em 1962 a pasta dos Negócios Estrangeiros. Nestas funções estabeleceu diversos contactos, nomeadamente com a China, que mais tarde lhe viriam a ser muito úteis.
Breve as divergências com Holden Roberto se fizeram sentir, por discordância na condução do movimento, pelo ideário tribalista do mesmo e por pura ambição pessoal de Savimbi. Em Julho de 64, consumada a rotura, tentou aproximar-se do MPLA e de Agostinho Neto. Após um breve período neste Movimento, afastou-se por divergências ideológicas. O MPLA era de tendência marxista-leninista e Savimbi nunca foi próximo. Em 65, em conjunto com Tony da Costa Fernandes, um histórico dirigente e fundador da UNITA, esboça os princípios programáticos e organizativos do movimento, fundado oficialmente no Muangai, Província do Moxico em 13 de Março de 1966.
A sua primeira ação armada ocorreu na madrugada de 25 de Dezembro de 1966, com o ataque a Vila Teixeira de Sousa, hoje Luau. Do ponto de vista estritamente militar foi uma derrota para a UNITA, mas politicamente a ação atingiu os seus objectivos pela audácia demonstrada.
Ideário
Hoje é difícil caracterizar ideologicamente Jonas Savimbi. Há quem o diga de direita e quem o ache de esquerda, foi próximo do maoísmo e durante muito tempo apoiado pelos Estados Unidos, tendo sido inclusivamente recebido por Reagan, assumiu-se como movimento libertador, mas uniu-se ao Exército da potência colonial. Todo o percurso político e militar de Savimbi está impregnado desta ambiguidade ideológica, a princípio pró-socialista, mais tarde pró-ocidental, anti-apartheid de início, aliado de Pretória depois.
O ideário da UNITA foi indissociável do “pensamento político” de Savimbi, muitas vezes ditado pelas circunstâncias. O documento original propunha mobilizar os camponeses e intelectuais para a luta de libertação nacional, lutar contra o analfabetismo, desenvolver a consciência política do povo angolano, combater o tribalismo, unir todas as forças angolanas contra a dominação colonial, ensinar aos militantes a necessidade da luta de classes, direção do combate anti-colonial pela vanguarda intelectual da sociedade angolana, visando uma revolução socialista, justa distribuição dos meios de produção, etc etc…
O que este documento definia como ideário, não seria muito diferente do manifesto político do MPLA. No entanto, Savimbi lutou activamente no terreno contra esse movimento.
A figura e a ação política de Jonas Savimbi, ambas extremamente controversas, dariam um volumoso livro. Enquanto Holden Roberto foi sempre uma figura apagada no panorama nacionalista angolano, aquele foi sempre um político central durante a guerra colonial e nos 27 anos seguintes à independência. Mas esse período escapa ao tema deste trabalho. Vamos sucintamente tentar abordar os factos que nos levam a classificar este homem como singular, quase sempre pelas piores razões.
Após a “prova de vida” do ataque a Teixeira de Sousa, a UNITA estruturou-se e organizou o seu ramo militar a que chamou Forças Armadas de Libertação de Angola, FALA, enquadrou a juventude na Juventude Unida Revolucionária de Angola, JURA e as mulheres do partido na Liga da Mulher Angolana, LIMA.
Mercê de um conjunto alargado de aliados regionais e outros, Tanzânia, Zâmbia, Egipto e mais tarde a China, a Unita tornou-se uma organização poderosa e bem armada, actuante no Leste e Sul de Angola. No entanto, uma série de erros políticos e militares de Savimbi, acabariam com boa parte desses apoios. A grave crise que o MPLA atravessava em 1971, leva Savimbi a pensar enfraquecer, se possível derrotar esse movimento e também a UPA/FNLA, de modo a que a Unita se tornasse o movimento hegemónico do nacionalismo angolano.
É então que o líder da Unita comete o erro capital da sua vida. Sem apoios externos para a concretização desse plano, Savimbi estabelece contactos com o Brigadeiro Betencourt Rodrigues, à época o comandante da Zona Militar Leste (ZML), no sentido de um acordo tácito de não beligerância e de cooperação activa, consubstanciado no apoio logístico e militar à Unita para, em conjunto com o Exército Português (EP), encetarem operações militares contra o MPLA e a UPA/FNLA. Esse acordo entrou em vigor em Novembro de 1971 e nele se fixava uma extensa área de acantonamento da Unita, na qual o EP não podia entrar.
Inicia-se com este acordo um período de extensas derrotas para os dois movimentos, agora duplamente acossados e em 1972, o MPLA e a UPA deixam de ter expressão militar na ZML.
A gravidade deste acordo resume-se à traição de um partido nacionalista angolano aos ideais emancipalistas, ao aliar-se ao exército colonial. Durante muito tempo a Unita tentou negar esse acordo, sendo hoje incontroversa a sua existência, inclusivamente suportada por documentação insuspeita.
Pude comprovar a sua existência em 1972, muito antes do conhecimento público. A Companhia de Caçadores 206/72 à qual pertencia, tinha sede em Nova Chaves, hoje Muconda. A Companhia era assessorada a nível de informação operacional, por um destacamento da PIDE, chefiado por um inspector. Mensalmente recebíamos do Comando do Sector um relatório Sitrep (situation report) com a classificação de Secreto, só acessível ao comandante da companhia, neste caso um capitão. No entanto os alferes podiam lê-lo e eu fazia-o regularmente. Comecei a reparar a ausência sistemática, mês após mês, de ações militares da UNITA contra as nossas tropas, o que me intrigava, porque não fazia qualquer sentido. Um dia, ao passar em frente da sede da Pide, encontrei o inspector. Meti conversa, convidou-me a entrar e lá dentro fiz-lhe a pergunta “porque é que a UNITA não tem ações militares contra as nossas tropas”. O homem ficou extremamente constrangido, pediu-me para sair e cá fora disse-me em voz baixa “não posso dizer-lhe isto, mas peço que não diga nada a ninguém: a UNITA é nossa, trabalha para nós”
Em Abril de 73, Betencourt Rodrigues, homem de grande prestígio e competência militar, deixa o comando da ZML e é enviado para a Guiné, para tentar mudar o curso do conflito, favorável à guerrilha. É substituído por Abel Hipólito que decide cancelar o acordo com a Unita, cercar e atacar o reduto do movimento. Inicia-se então um período de sucessivos confrontos com o Exército Português que deixaram a UNITA muito desgastada. No entanto, quando do 25 de Abril, foi reconhecida como um dos três movimentos de libertação, participou nos Acordos do Alvor em Janeiro de 75 e integrou o Governo de Transição, cuja composição quadripartida dificilmente poderia funcionar. Logo no mês seguinte, os três movimentos, tentando conquistar o Poder, envolvem-se em sérios confrontos armados. Uma última tentativa de acordo, foi feita em Junho em Nakuru, no Quénia. Até ao dia da independência (previsto no Alvor), as posições extremaram-se e nessa data o MPLA declarou a independência em Luanda e a Unita no Huambo. Nos 27 anos seguintes, Angola mergulhou numa devastadora guerra fratricida, em boa parte devida à personalidade de Savimbi. Interrompida em 92 por eleições cujo resultado não aceitou, voltou à guerra e 10 anos depois, em Fevereiro de 2002, rastreado o seu telefone satélite, Savimbi acabaria os seus dias numa emboscada das forças especiais do exército angolano.
Savimbi foi uma personalidade controversa. Homem culto, educado na Europa, mantinha no entanto, crendices tribais difíceis de entender num homem da sua estatura intelectual. Relacionou-se com várias mulheres, tendo quase todas acabado de forma trágica, fuziladas, queimadas vivas, (uma delas com um dos filhos de Savimbi nos braços), ou enterradas vivas.
Toda a sua longa vida política foi feita à custa de sangue, do inútil sacrifício de centenas de milhar de civis e militares de ambos os lados, inútil porque hoje a UNITA está integrada no sistema político angolano, como partido, algo que Savimbi nunca pensou aceitar.
(Continua)