Cardus Edição 140, dezembro 2024

FILOSOFALANDO

Jana

Filósofo

Immanuel Kant - Gemaelde 2



19. Kant 2



Depois de responder à pergunta “O que posso saber?”, Kant procurou responder a outra questão decisiva: “O que devo fazer?”

Deste modo, Kant abre uma separação entre o conhecimento e o dever, também na linha de Hume: daquilo que “é” (e que se conhece) não se pode concluir o que “deve ser”. Então, se não vem do conhecimento, donde vem o dever? Da Razão e apenas da Razão, é claro.

Desde logo, fica nítido que o dever deixa de poder vir da fé religiosa. Vem, se quisermos, da fé na Razão.

A Razão é, como se sabe desde os gregos, única, universal, eterna e pelo menos desde Descartes a mesma em todos. Logo, a Razão é o único bom guia para o nosso comportamento. Daí a proposta de Kant: devo agir de modo que a minha norma de ação se possa tornar lei universal. Cada ser humano tem em si a mesma Razão e a mesma Humanidade, logo, a norma do agir só pode ser uma e a mesma para todos.

Tem lógica, certo? Esta é a única e verdadeira norma do dever, diz Kant, norma imperativa e categórica, ou seja, sem exceção, absoluta. Nos termos de Kant: «Devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universal».

Vejamos algumas consequências. Eu não devo decidir, nunca!, pelo meu interesse, mas só e apenas pelo dever. Dever que não é ditado pela autoridade civil ou religiosa, mas apenas pela única autoridade legítima, a Razão. Para isso é necessário, em qualquer situação, perguntar à Razão – à Razão em mim – o que devo fazer. Outra consequência importante: o dever é apenas formal, isto é, a forma como eu devo decidir, não um dever material, isto é, com este ou aquele conteúdo ordenado por quem quer que seja.

Descartes, quando se pôs à procura de um saber sólido, encontrou uma primeira verdade: “Eu penso, logo existo”. Kant, agora, na mesma linha, afirma ‘Eu decido’ pela Razão de que sou constituído (tal como todos os outros). Na Idade Média, as pessoas eram, de modo evidente, segundo o pensamento da altura, qualitativamente diferentes. Era impensável querer comparar um clérigo, um nobre e um servo. Entretanto, com Descartes e Kant, entre outros, agora vemos que cada ser humano é pensado como um ser racional, capaz de conhecer e capaz de decidir. Basta que exerça a Razão que está presente em si. Por isso Kant, alinhado com o Iluminismo do seu tempo, o movimento que, entre outros atributos, afirma a fé na Razão, desafia cada um de nós a não se submeter seja a quem for, a assumir essa condição de ser racional autónomo, isto é, que se dá a si mesmo a lei (nomos) racional: “Ousa pensar!”ou, talvez melhor, “Atreve-te a pensar!”.

Não confundir, porém, ‘eu decido por mim próprio’ com ‘eu faço o que me apetece’. Não, decidir bem não é decidir pelo que me apetece, ou sequer pelo que me interessa, mas decidir pelo que me ordena a Razão universal que opera em cada um de nós. Deste modo, se todos assim procederem, gera-se uma sociedade em si mesma racional.

Para a ciência moderna, a natureza é em si mesma racional. Para o Iluminismo, o ser humano é em si mesmo racional. Para Kant, o projeto é tornar a sociedade racional, através da decisão racional de cada um dos cidadãos.

Mas… como bem sabemos, nem todos vão decidir bem, logo agir bem. Isso, além de corromper a racionalidade do mundo, é injusto… logo irracional. Impõe-se, por isso, uma instância superior, metafísica, que faça a justiça que se impõe. É a própria Razão, diz Kant, que exige a existência de Deus e a imortalidade da alma. Não são objeto de conhecimento, mas exigência da Razão. Ideias que a Razão põe de si mesma.

A Razão tem agora um estatuto de incondicional. A fé na Razão substitui a fé em Deus. E assim avançamos pela modernidade adiante.