Cardus Edição 139, novembro 2024

FILOSOFALANDO

Jana

Filósofo

Kant
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18. Kant 1



Immanuel Kant (1724-1804) foi formado como um racionalista, portanto com uma confiança cega na Razão. Mas, diz ele, o encontro com a obra de Hume despertou-o do “sono dogmático”. E foi assim que o pensamento europeu foi empurrado para mais um passo em frente.

Kant concorda com Hume: todo o conhecimento tem de começar pelos dados dos sentidos, mas não segue o mesmo caminho. Para Kant, “todo o conhecimento começa na experiência, mas não vem todo da experiência”. E explica: os dados dos sentidos não são conhecimento, apenas se tornam conhecimento quando trabalhados primeiro pela sensibilidade e depois pelo entendimento. Os dados dos sentidos são sempre apreendidos sob as formas (a priori, isto é, independentes dos conteúdos) da sensibilidade, o espaço e o tempo, resultando daí o fenómeno, ou seja, o que “aparece” para nós. O fenómeno é, então, trabalhado pelas formas a priori do entendimento, as doze categorias. Estas julgam o fenómeno segundo os doze tipos de juízo já identificados por Aristóteles. Uma das categorias é a universalidade. Então, o conhecimento tem a raiz no mundo, através dos dados da sensibilidade e é trabalhado pelo entendimento de modo a tornar-se universal e necessário. Está salva a possibilidade da ciência!

Mas a exigência de dados sensíveis para haver conhecimento, tese defendida tanto por Hume como por Kant, confirma que há ideias que não são objeto de conhecimento: Alma (ideia unificadora dos fenómenos internos), Mundo (ideia unificadora dos fenómenos externos) e Deus (ideia unificadora de todos os fenómenos). Mas donde vêm tais ideias? Da Razão, são ideias arquitetónicas que a Razão põe “de si mesma” para organizar e fechar o sistema de conhecimento. Fenómeno, conceito e ideia são termos ou palavras de valor muito diferente: o fenómeno é resultado da sensibilidade e objeto da ação do entendimento de que resulta o juízo que, este sim, é conhecimento. Uma ideia não é conhecimento e não pode ser conhecida, pois dela nada pode ser experienciado.

O conhecimento fica então enraizado, pela experiência, no mundo e a Razão (com maiúscula) vê reconhecido o seu poder supremo. Kant, por isso, não ficou racionalista, nem se tornou empirista: afirmou-se como empiro-racionalista, alguém para quem o conhecimento é e tem de ser resultado ao mesmo tempo da experiência e da Razão. E assim fica respondida a questão “o que posso saber?”, logo o que não posso saber enquanto conhecimento. Dito de outro modo: só posso conhecer a coisa, qualquer coisa, em mim, nunca a coisa tal como é si mesma (que Kant designa como númeno, em oposição ao fenómeno, a coisa em nós).

Mas, se é assim, então todo o conhecimento é uma construção humana e nunca traduz a realidade em si mesma. Deixa de fazer sentido o que até então fazia todo o sentido, que a verdade é “adequação do intelecto às coisas”. Agora, defende Kant, são as coisas que, no conhecimento, se adequam ao intelecto, isto é, às exigências do mecanismo humano de conhecimento. É o que ele chama uma “revolução copernicana”.

Ainda hoje não digerimos esta conclusão. Continuamos a acreditar que as coisas são tal e qual como dizemos que são. Acreditamos, com ingenuidade acrítica, que a realidade é aquilo que dela dizem as ciências. E (outro lado da moeda) acreditamos que aquilo que não é dito pelas ciências não é verdade, não é realidade, não tem qualquer valor.

Kant não foi apenas um filósofo do conhecimento. Só que este espaço não dá para mais. Se tudo correr bem, voltaremos ao tema na próxima oportunidade. Vale?

 

P.S. – Sobre Kant é importante saber, para a conversa social, que é tido como um homem tão, tão regular, que todos os dias saía de casa à mesma hora para um passeio, o que levava as mulheres de Königsberg, a sua cidade, de onde nunca saiu, a “acertarem os seus relógios” pela passagem do senhor Kant.