Cardus Edição 138, 0utubro 2024

FILOSOFALANDO

Jana

Hume
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17. Hume



David Hume (1711-1776), nascido na Escócia, é um dos maiores representantes de uma corrente filosófica designada por empirismo.

Descartes afirmou a confiança absoluta na Razão como fonte e critério do verdadeiro conhecimento. É a filosofia do racionalismo. Mas se a Razão é a fonte e o critério do conhecimento, como é que ele é garantido como conhecimento do mundo?

Hume, na sequência de outros [John Locke (1632-1704) e George Berkeley (1685-1753), por exemplo] defende que só há conhecimento garantido do mundo quando ele nasce dos sentidos. Quando as coisas do mundo atuam sobre os nossos sentidos, deixam um nós uma impressão e é aí, e só aí, que nasce o conhecimento. Estas impressões são “ideias simples” que, depois, conjugadas com outras, dão origem a “ideias complexas”. Assim, o nosso conhecimento é garantido como conhecimento “do mundo”.

Mas, se é assim, ficam excluídos do conhecimento Deus, a alma e a sua imortalidade e os milagres. Descartes já tinha deixado Deus de lado; Hume parece dar-lhe a machadada final, ao não lhe reconhecer qualquer lugar digno no pensamento humano.

Só que… esta solução, de Hume, abre um problema novo. É que os nossos sentidos apenas e só nos dão conhecimento de situações pontuais, de coisas singulares. Ora desde os gregos que reconhecemos que a ciência, para o ser, não se pode ficar por situações singulares. Só há ciência do universal. A ciência enuncia leis necessárias do acontecer. Como é que se passa de casos singulares para leis universais e necessárias? Não passa, não pode passar. Por outro lado, aquilo sobre que se funda a nova ciência, a física, é a causalidade: procurar as causas para, assim, encontrar as ditas leis do mundo. As mesmas causas nas mesmas circunstâncias produzem sempre os mesmos efeitos. Mas os nossos sentidos apenas nos dão situações, uma de cada vez, uma atrás da outra ou uma em simultâneo com outra. Não nos dão causas, não podemos conhecer causas apenas com base no que nos é dado pelos sentidos. Assim sendo, em que fica a ciência? Em nada. Ou talvez numa ilusão. A tentativa de fundar uma ciência dos factos parece ter destruído a própria possibilidade da ciência.

Descartes interessou-se pela fundamentação da ciência e desinteressou-se pela ordem social e política. Hume interessou-se pela ciência e foi coerente para lá dela. Se não há qualquer hipótese de conhecimento sobre Deus, não faz qualquer sentido fundar a ordem social ou a simples moral na Lei de Deus ou na autoridade da Igreja. Então, como pode ser fundada uma ordem social e a respetiva organização? Muito mais que dar a resposta de Hume (o espaço  não deixa), cabe perceber que se abre aqui um novo continente de investigação sobre a fundamentação não religiosa da vida social. À ciência dos factos do mundo natural vem agora juntar-se o conceito de “natureza humana”, que é necessário investigar de modo racional. Percebe-se que estamos perante uma revolução silenciosa: de uma sociedade de matriz religiosa, herdada da Idade Média, transitamos para uma sociedade de matriz civil, que procura em si mesma – na sua natureza – os princípios da ordem possível e desejável.

Vista a partir de hoje, lugar privilegiado que é o nosso, sabemos que esta evolução vai no sentido dos Direitos Humanos, da fundamentação social na vontade dos cidadãos (a democracia), no reconhecimento de que os seres humanos não são apenas virtuosos, logo na tripartição dos poderes e assim por diante. E, repetindo, onde fica Deus e a Igreja no meio disto? Não ficam, pelo contrário, são denunciados ou mesmo combatidos. Quando muito, uma religião natural, procurada e fundada na natureza humana.

A principal obra de David Hume é o “Tratado da Natureza Humana”, depois desdobrada e complementada noutras obras. O título mostra bem o “programa” filosófico do autor que iria ter implicações profundas sobre o futuro filosófico da Europa. A começar por Kant, sem dúvida um dos filósofos ocidentais mais importantes.