Cardus Edição 137, setembro 2024
René Descartes (1596-1650) foi matemático (coordenadas cartesianas…), cientista e notabilizou-se também na filosofia. Estudou numa das melhores escolas da Europa, mas não ficou satisfeito. Não era para admirar, face ao turbilhão que então se vivia no campo dos saberes. Tanto que o médico, matemático e filósofo português Francisco Sanches (1550-1623) concluiu no título do seu livro “Que nada se sabe” (Quod nihil scitur).
Homem determinado, Descartes não teve meias medidas: decidiu procurar por si mesmo um saber seguro que ninguém lhe oferecia. Para grandes males, grandes remédios: optou por duvidar de tudo, mas de tudo mesmo, recusando-se a aceitar qualquer conhecimento em que pudesse encontrar sequer vestígios de uma dúvida. É a chamada “dúvida metódica”: a dúvida como método de limpeza para depois construir um “sistema de saber” isento de dúvidas.
Foi então que ele, nesta operação de duvidar de tudo, se deu conta de que havia algo de que não podia duvidar: se eu duvido, então existo, se não existisse não podia duvidar. E se voltar a duvidar, volto a ter de reconhecer que existo. “Penso logo existo” (Cogito, ergo sum). É lógico. Mas a lógica (que é para levar a sério) não permite dizer mais que isto: existo, mas apenas como uma “coisa” que pensa, seja lá o que for. Descartes reconheceu que tinha uma primeira pedra do novo edifício ou sistema de saber.
Então, pôs-se a inspecionar essa coisa que pensa, e descobriu nela a ideia de Deus como ser absolutamente perfeito. Como a existência é uma perfeição, Deus tem de ter a perfeição de existir (um tributo ao filósofo medieval Anselmo de Cantuária). Se Deus é perfeito, não me pode enganar. Então, os conhecimentos que eu alcançar através de um bom uso da razão têm de ser verdadeiros. E Razão é uma faculdade que todos nós temos, dada por Deus. Logo, o sistema de conhecimentos obtidos pela Razão e organizados em sistema está garantido. Mãos ao trabalho racional, portanto.
Além disso, Descartes acabou por construir uma ideia de ser humano como alma racional e corpo material. Duas partes de naturezas diferentes e separadas. A alma, à maneira de Platão, ou o eu (o tal que pensa) é imaterial e capaz de conhecer de modo racional e garantido por um bom método (o segredo está no método); quanto ao corpo, não é mais que uma máquina biológica como o de qualquer animal. Mas surge aqui um problema: como é que o eu faz movimentar por exemplo um braço? Descartes afirmou a existência de um ponto no corpo, a glândula pineal, no cérebro (por ser única num cérebro de dois hemisférios), em que a alma comunica com o corpo. Mas não convenceu quase ninguém. Mais ainda: como é que aquilo que o eu conhece pela Razão é conhecimento “do mundo” real? Sobrou o problema para séculos de debate e criatividade filosófica.
Descartes abriu um novo mundo. O novo sistema do saber, ou ciência, estava salvo. Deus garantia o saber, mas saía de cena a partir daí: a sociedade civil estava legitimada, pelo menos no campo do conhecimento. Cada ser humano passava a ser dotado da única e mesma Razão (com maiúscula), logo estava aberta a possibilidade, mesmo longínqua, da igualdade e da democracia (que na idade Média eram impensáveis). O eu pessoal passou a ser tido como o princípio de… tudo: daí o individualismo que se afirmaria a prazo. A natureza continuou a ser tida como racional e matemática em si mesma, não dependente das decisões pontuais de Deus, e o mundo passou a ser possível de ser governado de modo técnico-científico: a Igreja viu o seu papel social posto em causa, remetida para o foro privado. O corpo humano manteve a não dignidade que trazia desde há séculos (mas começou a ser estudado como máquina, o que foi uma revolução na medicina). A ciência como único conhecimento válido viu-se colocada no trono e as humanidades (onde nada é certo) ficaram sem lugar reconhecido. A Razão retomou da Grécia antiga o seu papel e passou a ser tida como a estrutura tanto da realidade como do conhecimento (científico, é claro). E a fé, que era o verdadeiro guia na idade Média, ficou dispensada de responsabilidades.
Descartes é muito mais do que uma breve exposição pode mostrar. Mas podemos ver aqui algumas das linhas da Época Moderna com que Descartes (e outros, sempre “e outros”) contribuiu para a história da civilização ocidental. Então, a vida podia continuar com novo fôlego.