Cardus Edição 136, agosto 2024

FILOSOFALANDO

Jana

Garcia Orta
Martins Correia, Monumento a Garcia de Orta



15. Entretanto 2



A Europa e o mundo, como sabemos, deram uma profunda volta nos séculos XV e XVI.

As descobertas, sobretudo por portugueses e espanhóis, deram uma outra imagem do mundo e do saber. Garcia de Orta (1501-1568), médico e botânico, é um exemplo. Ficou célebre a sua afirmação  “Sabe-se mais em um dia pelos portugueses, do que se sabia em cem anos pelos romanos”. E, não é só mais saber, é outro saber, como ele mesmo diz: “Verdades ditas sem cores retóricas, porque a verdade se pinta nua”. Por isso, afirmava como uma questão de princípio: “Não me ponhais medo com Dioscórides, nem Galeno, porque não hei de dizer senão a verdade e o que sei.” Como quem diz, de nada valem as grandes autoridades do passado face àquilo que eu próprio vejo e por isso digo. É um terramoto, uma nova ordem intelectual: substituir o princípio da autoridade pelo princípio da observação.

O comércio, com novas rotas e novos produtos e ajudado pela introdução da numeração árabe que tornou possível uma contabilidade a sério, estava a acelerar a transição do feudalismo para o que viria ser o capitalismo, sem esquecer o colonialismo que irá durar até ao século XX.

No norte e centro da Europa, Lutero e outros lançavam uma outra versão do cristianismo e abriam novas frentes políticas. A sul, Portugal e Espanha eram agora novas potências.

Por toda a Europa, a partir do que é hoje a Itália, desenvolveu-se o Renascimento, um “renascer” da cultura pelo estudo dos códigos greco-romanos, uma forma de reagir contra os modelos vindos da Idade Média. Esta influência é nítida nas artes plásticas. Os artistas europeus procuravam e fizeram uma renovação profunda. Uma das dimensões dessa renovação constata-se na afirmação do individualismo que se desenvolvia em todas as dimensões sociais: os artistas começam a assinar as suas obras, surge o retrato de uma pessoa singular (e não uma personagem mítica ou religiosa) e os poetas começam a expressar os seus sentimentos. Agora, o pensamento e a sociedade organizavam-se a partir do ser humano, deixando de ter em Deus o seu centro.

Como vimos já aqui, estava também a nascer uma nova física com Galileu e Newton e tantos outros. Mais que isso, uma nova forma de fazer ciência, um novo modo de conhecer. Mas que valor tinha esse novo saber? Aliás, novo em contraponto a autores cuja autoridade trazia o reconhecimento de dois milénios ou mais. Tanto mais que o mecanicismo, a nova visão mecânica do Universo e das coisas físicas, parecia não dar qualquer lugar a Deus.

Estes são apenas alguns traços muito gerais que querem dar a perceber duas coisas: um novo mundo estava a nascer e as ideias que vinham do mundo anterior não valiam grande coisa.

Camões sintetiza-nos, num soneto bem conhecido, o ar do seu tempo: «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança: / Todo o mundo é composto de mudança», mas agora «não se muda já como soía».

Isso quer dizer que fazia falta encontrar “novas ideias” que organizassem o pensamento e a vida tanto pessoal como coletiva no mundo novo. Descartes viria a ter um papel de primeira ordem neste trabalho.