Cardus Edição 135, julho 2024
- Mas Galileu foi um filósofo!?
Não, foi um matemático e, a partir daí, um físico e depois um astrónomo. E desse modo foi – e continua a ser – uma personagem de primeiro plano na cena filosófica europeia. Por isso vale a pena olhar para ele.
Desde sempre os seres humanos se sentiram desafiados a conhecer mais e melhor e sempre procuraram novas estratégias para o conseguir. Os gregos codificaram o pensamento lógico-argumentativo. Aristóteles foi também um grande observador, mas essa metodologia de conhecer esbateu-se, salvo na astronomia, e na idade Média o debate lógico-argumentativo dominou o panorama intelectual.
Galileu (1564-1642) introduziu uma novidade decisiva: conhecer de modo matemático, colher os resultados da observação em linguagem matemática. «Nem basta conhecer que os corpos em queda caem com velocidade acelerada, mas é preciso conhecer segundo que proporção», defendeu. Já o grego Pitágoras (570 a.C. - 495 a.C.) tinha dito que tudo é feito de números e Platão assumiu a importância da matemática. Mas é com Galileu que esta se torna, de modo decisivo, a linguagem do novo conhecimento. Novo porque casa a observação do mundo e a matemática. Foi a verdadeira revolução. Vale a pena repetir: observação do mundo e linguagem matemática. O resto… não interessava a Galileu.
É com essa metodologia de conhecer que Galileu descobre um novo mundo: um mundo mecânico, governado pela lei da inércia e à disposição para ser conhecido e aproveitado através desse conhecimento.
Teve a sorte de aparecer nessa altura a luneta, que ele melhorou e apontou para a Lua. Viu então aquilo que era impossível ser verdade. A Lua, como todos os astros, era até então tida como uma esfera perfeita de cristal (por razões sobretudo lógicas), mas Galileu viu que tinha montanhas e vales! Além disso, a Terra era considerada o único centro do Universo, mas Galileu descobriu que havia movimentos à volta de Júpiter.
Quando o que é impossível acontece é que acontece alguma coisa importante. Foi o caso. E muitas das autoridades intelectuais de então começaram a cair em confronto com as novas descobertas. Foi o caso de Aristóteles enquanto físico e da Bíblia quando tomada como base para deduções sobre o mundo físico. Isso levou a um conflito com a Igreja. Aristóteles dizia que todo o universo rodava à volta da Terra e isso era compatível com as narrativas bíblicas. Mas agora havia uma nova teoria a sobrepor-se: a Terra roda à volta do Sol. Quando Galileu se afirmou partidário da nova teoria, a Igreja, considerada então autoridade também científica, recusou e condenou-o à prisão. Há aqui um conflito profundo, mas não é entre a Igreja e a Ciência (como se ouve dizer por aí), mas entre um modo de conhecer e outro novo e revolucionário modo de conhecer. (Infelizmente não será a última vez que o poder da autoridade na ciência instalada condena um jovem cientista apesar deste ter razão.)
Galileu, com Copérnico, Kepler e Newton, entre outros, reconstruíram a ideia de mundo: era até então a expressão da “vontade de Deus”, logo imprevisível e apenas enfrentável pela oração e pelo arrependimento; pouco a pouco, passou a ser um objecto (um relógio) racional e mecânico a funcionar de acordo com leis perpétuas que importa conhecer para delas tirar o melhor proveito.
Como resultado desta “revolução”, deu-se um progressivo afastamento entre as gentes da ciência e as das humanidades, como se tivessem de andar de costas voltadas. Até hoje.