Cardus Edição 134, junho 2024
O pensamento cristão vinha formatado por Agostinho de Hipona (e outros) a partir da filosofia de Platão. O principal serviço filosófico de Tomás de Aquino (1224? - 1274), no que aqui nos interessa, foi acolher (através dos árabes) a filosofia de Aristóteles, adaptá-la às exigências do cristianismo e, assim, recuperá-la para o pensamento ocidental. Além disso, a sua monumental Suma Teológica foi uma exposição sistemática do pensamento cristão, o que reforçou a vocação de sistema no saber ocidental. Deste modo, consolidou a filosofia grega como estrutura intelectual do cristianismo na sua versão romana.
Tomás de Aquino foi tanto o grande filósofo medieval como um eminente teólogo, depois nomeado “doutor da Igreja”. Na sequência de Aristóteles, que chega até à afirmação de Deus como motor imóvel do Universo, Tomás de Aquino afirma o conhecimento como fundado no poder da razão, embora incapaz de conhecer as verdades reveladas. No entanto, contra a oposição entre fé e razão, continua a sustentar a unidade entre as duas, salvaguardando assim a integração entre filosofia e teologia num sistema coerente e sólido.
Quem conhece a célebre pintura da Rafael, “A Escola de Atenas”, no hoje Museu do Vaticano, sabe que Platão é ali representado a apontar para o céu e Aristóteles a apontar para o chão. Platão afirmava um pensamento de cima para baixo, a partir da Ideia de Bem, e Aristóteles pensava a partir da observação das coisas e dos processos do mundo, elevando-se então para os níveis superiores de abstração e mesmo da ideia de Deus mas como motor imóvel, como já referido.
Tomás de Aquino, na senda de Aristóteles, focou a sua atenção na análise das realidades do mundo, embora sempre, é claro, de modo a abrir-se para as verdades “reveladas” da fé. Esta nova atenção ao mundo abriu novas vias de análise. A verdade sobre o mundo é afirmada como “adequação do intelecto às coisas”, sendo, portanto, as coisas a medida ou o critério da verdade do conhecimento. No que diz respeito à Fé, o critério tem de ser outro, pois a razão não pode chegar ao conhecimento do que apenas pode ser objeto de revelação, por exemplo a afirmação de Deus agora não apenas como motor imóvel, mas como criador do Universo. Mas, como vemos, para Tomás de Aquino razão e fé complementam-se. Temos assim uma razão ao serviço da fé, mas uma razão válida em si mesma.
Na Europa, estava-se então no tempo da criação e afirmação das primeiras universidades, entre as quais a de Paris, onde Tomás de Aquino foi um notável professor.
O seu trabalho intelectual dava ao pensamento católico uma estrutura e uma solidez que lhe permitiam afirmar-se na consolidação do que podemos chamar de civilização ocidental. De momento, a Igreja Católica era a grande estrutura de poder espiritual e cimento do poder civil, servida por um sistema de saber que Tomás de Aquino ajudava a estruturar fundando-o na razão e ampliando-o pela fé.
Os conventos e depois as universidades eram ainda os centros de ciência (sobretudo matemática e astronomia) e da técnica (ao serviço de uma economia agrária).
Estamos habituados a ouvir falar da Idade Média como um tempo de “trevas”. É verdade que a queda do Império Romano levou ao caos social e, com a perda da organização, a uma profunda queda civilizacional. Roma, por exemplo, de 700.000 habs. terá ficado com apenas 70.000 (10%), o que nos permite imaginar a destruição das estruturas e da organização do Império. Daí a importância que a Igreja teve na reorganização da Europa pós-romana e na reconstrução da civilização no espaço europeu. Contra a ideia das “trevas”, a Idade Média tem vindo a recuperar o seu estatuto de tempo de criatividade intelectual e mesmo técnico-científica, se bem que não ao nível do que encontraremos nos séculos que se aproximavam no horizonte. Tomás de Aquino foi produto e um expoente máximo dessa aventura do pensamento medieval europeu.