Cardus Edição 133, maio 2024
«O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.» Esta é talvez a afirmação mais conhecida deste autor (354-430), na sua obra Confissões.
Aurélio Agostinho, mais conhecido como Santo Agostinho, pode ser dito como o último filósofo antigo e o primeiro medieval. Nasceu no norte de África, importante província do Império Romano, e teve uma boa educação clássica num tempo em que fervilhavam as correntes filosóficas e religiosas. Aos 18 anos decidiu procurar a sabedoria e aderiu a uma filosofia maniqueia que unia elementos do zoroastrismo (do Médio Oriente) e do gnosticismo (mistura de Platão e Bíblia). O maniqueísmo tinha uma imagem negativa de tudo o que é material, concebendo o mundo como obra de um deus mau. A vida era vista como a luta entre o Bem e o Mal, ou, numa versão mais platónica, como um dualismo entre o racional e o sensível. Mais tarde aproximou-se do ceticismo.
Em 386 converteu-se ao cristianismo e viu-se depois nomeado bispo de Hipona (396), onde exerceu uma intensa atividade de combate contra as heresias, ou seja, contra as versões da doutrina não reconhecidas pela autoridade central da Igreja. Lembremos que o cristianismo estava ainda em formação, no conteúdo da sua fé e na organização dos crentes. Agostinho teve, por isso, um papel central na construção de uma versão platónica da nova fé religiosa. E desse modo deu forma ao pensamento que se tornou dominante na Europa. (Lembremos: o cristianismo foi adotado em 380 como a religião oficial do Império, e Agostinho converteu-se 6 anos depois).
Para Agostinho, há um só mundo criado pelo único Deus, logo apenas pode haver uma única Verdade (com maiúscula), que deve ser procurada e conhecida pela Razão e pela Fé. Daí vem a tese da unidade da fé e da razão, ambas dadas por Deus ao Homem. Para os seres humanos, nem a Fé, nem a Razão se bastam a si mesmas, o que deu à filosofia um lugar decisivo no cristianismo.
O maniqueísmo de origem e a adoção de Platão como mestre deram a Agostinho uma visão negativa deste mundo e uma inevitável opção pelo mundo prometido para depois da morte.
Vendo bem, está aqui o esqueleto teórico da Idade Média europeia. Sem esquecer que Platão tinha ensinado que “quem sabe” o que é o Bem é que “deve governar”. Agora, o verdadeiro saber é o da Fé (revelada) apoiada pela Razão. Daí o poder da Igreja no mundo medieval: todo o poder “vem de “Deus” e a Igreja tem um mandato divino.
Um dos contributos de Agostinho foi a reflexão sobre a noção de tempo. Os pontos essenciais da fé cristã – a existência de Deus antes da criação, a criação dos seres humanos no início dos tempos, a encarnação em Jesus no mundo, a espera do “fim dos tempos” e a eternidade prometida – obrigaram Agostinho a uma reflexão profunda sobre o tempo que, de algum modo, converteu a cultura ocidental a um tempo linear, deixando para trás a conceção do tempo como circular, até então dominante. Agora, o “paraíso prometido” está no futuro, é a eternidade. O presente fica desvalorizado. (O mesmo dirão por exemplo Marx e o marxismo, colocando o paraíso no futuro, embora neste mundo, bem como a utopia tecnológica que hoje promete o paraíso e mesmo a imortalidade através da ciência e da tecnologia.)
Podemos dizer que Agostinho deu forma sólida, embora não sistemática, à nova fé cristã, consolidada pela filosofia clássica. Percebe-se, portanto, a influência de Agostinho como um pilar da cristandade, período que vai de 380, quando o cristianismo foi tornado a religião oficial do Império Romano, até 1789, data da Revolução Francesa. Além disso, através da ordem dos agostinhos, inspirada no pensamento deste decisivo autor cristão, a que pertencerá o frade Lutero, Agostinho teve grande importância na filosofia da Reforma protestante.
Passo a passo, assim se vai construindo a civilização ocidental.