Cardus Edição 132, abril 2024
José Alves Jana
… nasceu como uma religião marginal e hostilizado tanto pelo judaísmo como pelo Império Romano. A partir de Jerusalém, nos anos 30, apesar de perseguidos, os cristãos foram-se multiplicando por todo o Império com assinalável êxito. A ponto de em 380 o cristianismo ter sido adotado pelo Império como religião oficial. Então, de religião marginal tornou-se a religião do Poder, embora num processo que não foi imediato. Por isso e também porque havia então uma enorme vida cultural, própria do tempos de crise, o cristianismo viu-se obrigado a dar conta da sua fé em termos greco-romanos e a encontrar respostas para os seus adversários, tanto externos como internos. Foi na filosofia grega que procurou os fundamentos e a lógica da argumentação. Tornou-se, por isso, greco-judaico (e não judaico-cristão, expressão que não faz sentido).
Quando em 476 o Império caiu (Roma de 700.000 habitantes passou a 70.000, apenas 10%), ficou instalado o caos. Foi o cristianismo, sobretudo através das ordens religiosas, que dirigiu e orientou a reconstrução da sociedade europeia. Desse modo expandiu e consolidou a presença por toda a Europa da filosofia grega, bem casada com a sua fé de origem judaica. Agostinho de Hipona (St. Agostinho) foi um dos filósofos que fizeram esse trabalho.
Durante os primeiros séculos, imperou na formulação da fé cristã a filosofia de Platão. É por isso que ainda hoje a doutrina da Igreja Católica afirma como de fé a existência de uma alma espiritual, racional e imortal, como no séc. IV a.C. ensinou Platão. Do mesmo modo, daí tirou o menosprezo pelo corpo, pela sensibilidade, pela sexualidade, por tudo o que é material, pelo próprio mundo sensível. O mundo e a vida mundana foram vividos como o oposto da vida espiritual. E a vida religiosa da Igreja Católica recolheu-se ao espaço celeste do convento, o verdadeiro ideal de uma vida religiosa de nível elevado, ou tentou imitá-lo.
E foi assim até ao séc. XIII, quando Tomás de Aquino (1225-1274, faz agora 750 anos), com pesado custo, converteu a Igreja à filosofia de Aristóteles, embora sem eliminar os fundamentos platónicos já estabelecidos e consolidados.
Em 1517, Lutero divulga as suas 95 teses e desencadeia a Reforma protestante em rotura com a Igreja de Roma. Outra filosofia, outra forma de estar no mundo. A recusa da vida monástica levou a que a vida religiosa se voltasse, não já para o convento, mas para a cidade. É na cidade que se realiza a obra de Deus, no mundo portanto. Isso leva a que o norte da Europa siga uma filosofia social e política bem diferente do sul católico. Até hoje.
E assim as coisas continuaram, mais ou menos… até quando? Bem, não podemos ir depressa demais. Mas, já agora, até ao Concílio Vaticano II, os manuais de filosofia adotados nas escolas superiores católicas eram (todos?) de matriz aristotélico-tomista. E a corrente filosófica designada por neotomismo (de S. Tomás) desenvolveu-se, embora sem grande sucesso, sobretudo a partir de 1879 e teve como principal representante o filósofo francês Jacques Maritain (1882-1973). Não é só na química, também na filosofia parece que “nada se perde”. Mas será que “nada se cria”?
Olhando à distância de dois milénios, vemos que o cristianismo ofereceu ao Ocidente três operadores decisivos: a noção judaica de culpa, logo de sacrifício; a ideia de um salvador (que os portugueses conservam como sebastianismo); e a noção de tempo linear, que os judeus interiorizaram a partir das ideias da saída do Egito (ato único no passado) e da vinda do Messias (ato único no futuro). Esta noção de tempo linear é uma marca profunda na civilização, vindo substituir o tempo circular que até então imperava.