Cardus Edição 131, março 2024

FILOSOFALANDO

José Alves Jana
(jalvesjana@gmail.com)

Filósofo

entretanto



10. Entretanto



Entre tanto que havia para dizer, foi necessário fazer escolhas. Que nos perdoem Pitágoras, Demócrito, os sofistas (!), Plotino, entre outros. E igualmente figuras aparentadas como Euclides, Hipócrates e Ptolomeu, também entre outros, além das relações íntimas entre filosofia, política, arte, ciências, medicina. Não esqueçamos que “está tudo ligado”, logo nenhum autor é inocente do que se passa à sua volta e depois de si. Mas agora, neste entretanto para um balanço breve, é importante irmos por outra pista.

Não devemos esquecer o que aprendemos em biologia: que os seres humanos são resultado de um processo evolutivo que vai dos seres unicelulares até aos mais complexos, o que faz com que todos sejamos primos dos primatas superiores e parentes afastados de todos os outros seres vivos. Não vale afirmarmos isso em biologia e ignorá-lo por exemplo nas humanidades. Somos animais, temos um património biológico recebido no ADN, que é o manual natural de instruções de comportamento individual e coletivo.

Dizem-nos os neurologistas e os historiadores que o cérebro humano actual, o objecto mais complexo que se conhece no Universo, é o resultado do último grande salto evolutivo sofrido pelo próprio cérebro há cerca de 70.000 anos (outros dizem 50.000, mas isso é irrelevante aqui). Quer isto dizer que cada um de nós nasce com um manual de instruções de bom comportamento… para o mundo de há 70.000 anos. Não para o mundo de hoje. Quer isso também dizer que todas as aquisições desde há 70.000 anos tiveram de ser criadas, mantidas e partilhadas (pela educação e não só) ao longo dos séculos e não estão inscritas no código natural de bom comportamento.

Quem vai a um museu da pré-história pode ver os objetos da vida social a irem aparecendo na linha narrativa da museografia proposta. Que não mostra, nem pode mostrar, o que lá falta: tudo o mais que hoje temos. Somos nós que devemos pensar que no início havia um quase nada e hoje temos tudo. Este tudo, sabemo-lo, teve de ser criado. Não só as coisas, também as ideias, os métodos, os princípios, os modelos e assim por diante.

Os gregos foram decisivos na criação da gramática de um novo modo de pensar, a partir do qual veio a desenvolver-se a civilização ocidental. Um modo de pensar discursivo e argumentativo, segundo regras lógicas para uma conclusão necessária; uma natureza pensada em si mesma e investigada pela observação, reflexão e análise lógica; uma relativa independência do pensamento, logo da cidade, face às narrativas míticas e ao culto oficial; uma procura pessoal e coletiva da vida boa e feliz; uma confiança na pessoa individual como capaz de pensar e na comunidade crítica dos pensantes; a secularização do saber (que leva à secularização do poder)... Mas também a ideia de que basta pensar com (alguma) lógica para se saber como é o mundo (ainda hoje há muita gente que acredita nisso).

Curiosamente, enquanto no século VI a. C. os gregos começavam a escrever o código do pensamento ocidental, também no Oriente outros autores (Lao Zi, Confúcio e Buda) escreviam o código ou a gramática de um outro modo de pensamento, dando origem a outras civilizações. Sempre houve contacto, logo influências, entre estas civilizações, mas isso não impediu que elas se tenham estruturado como civilizações diferentes, com modos de pensar, sentir e agir bem diferentes entre si. Aquilo que vimos até agora, neste espaço, foi a formulação de alguns dos princípios da gramática do pensamento da civilização ocidental. Uma gramática, a nossa. Que não nasceu do nada, é claro: os gregos não tiveram de inventar o alfabeto e a língua grega faz parte do conjunto das línguas indo-europeias de que herdou, sem dúvida, importantes contributos, além dos que recebeu pelos intercâmbios comerciais e culturais, sem esquecer os militares, dos povos do seu tempo. Em especial a Mesopotâmia e o Egito, onde os gregos procuravam conhecimento e sobretudo a Sabedoria.

O que aqui nos interessa é observar, ainda que de modo ligeiro, o longo processo de constituição do nosso modo de pensar e da civilização a que pertencemos. E da nossa racionalidade, que tendemos a supor metafísica, mas que resulta do longo processo em que o “macaco nu” (Desmond Morris) formulou “uma” gramática de pensar, a nossa – entre outras. Conhecer essas outras é parte importante, indispensável, de conhecermos a nossa maneira de ser, isto é, de sentir, pensar e agir. Mas não é esse, por falta de “espaço”, o caminho que podemos seguir aqui.