Cardus Edição 130, fevereiro 2024

FILOSOFALANDO

José Alves Jana
Filósofo


9. Epicurismo e Estoicismo



Epicuro (341 a. C. – 270 a. C.) defendeu que o ideal de uma vida boa estava nos prazeres moderados da vida. Moderados porque os prazeres intensos depressa degeneram em sofrimento e dor e a procura intensa dos prazeres é insaciável e depressa resultam no seu contrário, o sofrimento. O modelo epicurista de uma vida boa implica, por isso, conhecer o mundo e o corpo e os efeitos de cada um dos nossos comportamentos. É importante levar uma vida de hedonismo, usufruto dos prazeres, mas de modo a manter-se livre do medo e da dor. Se prestarmos atenção, este é um modelo que não supõe qualquer intervenção divina. A vida tem o seu sentido no mundo imanente, isto é, no mundo material e da vida corporal que é a nossa. Há, pois, que viver uma vida boa e ela própria é a norma e a recompensa de viver bem. Propõe Epicuro.

O estoicismo é outra filosofia grega, mas parece que vai em sentido contrário do proposto por Epicuro. Enquanto o epicurismo propõe a procura dos prazeres moderados, o estoicismo propõe-nos o desapego ou desinteresse por todas as emoções que se alimentam do exterior. Uma espécie de indiferença pelo que se passa, mas no duplo sentido de aceitação do que acontece e de foco na paz e serenidade interior que se alimenta, não do exterior, mas da vida interior vivida com base no conhecimento do mundo e no cultivo das virtudes interiores, logo com a redução do stress, do medo, da angústia, das dependências do que não depende de nós. Cito uma frase célebre de um importante estoico, Epicteto, este já romano (50 d. C. - 138): «De todas as coisas, algumas dependem de nós, outras não dependem de nós”. Parece uma afirmação infantil, fácil de todos concordarmos com ela, mas, se levada a sério, trará consequências profundas: é tolo preocupar-se com ou cuidar do que não depende de nós, restando-nos então a aceitação incondicional do que acontece, porque não depende de nós, e é inteligente focar a nossa energia e ação no que depende de nós, porque é aí que podemos ter algum resultado.

Não é difícil perceber que, com os epicuristas e os estóicos, a filosofia grega (e romana, mais tarde) cuidou sobretudo de como conduzir a nossa vida corrente. Com Sócrates, Platão e Aristóteles, havia cuidado mas com a vida intelectual, filosófica, a procura da sabedoria, mas sobretudo num sentido teórico. Agora o cuidado é com a vida prática do comum dos homens (que as mulheres, no geral, não eram achadas nestes assuntos gregos e romanos).

Não admira que hoje, neste nosso mundo conturbado, stressado e sujeito ao burnout, o estoicismo esteja de novo a merecer o favor das editoras e a atenção dos leitores e dos praticantes da procura de formas de vida boa. Também aí os gregos nos precederam.