Cardus Edição 129, janeiro 2024

FILOSOFALANDO

José Alves Jana
Filósofo





8. Aristóteles



Aluno de Platão, Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) não seguiu o pensamento do mestre. Platão defendia que as ideias é que são a verdadeira realidade, da qual as coisas são meras cópias imperfeitas. Aristóteles focou-se nas coisas, que, dizia ele, são compostas de matéria e forma. Ou seja, o segredo das coisas está nas próprias coisas. Conhecer começa pela observação das coisas. Por isso Aristóteles tornou-se o fundador de muitas das ciências e um mestre da observação como base do pensamento. E foi por isso o grande teorizador metafísico do Universo como era então conhecido, sistema que se manteve por quase dois mil anos, até Galileu. Aristóteles é tido, ainda hoje, como um dos maiores cientistas de todos os tempos.

Outra grande obra sua foi estudar as regras do pensamento válido. Os gregos deram um grande salto com a descoberta de um novo modo de pensar. Aristóteles codificou a lógica, ou seja, as regras do pensamento lógico ou a gramática do pensamento racional.

Vejamos um exemplo clássico. “Todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Logo Sócrates é mortal.” Bem, parece – e é – lógico, além de fácil. Mas o importante é perceber por que razão é lógico, isto é, por que leis este silogismo é válido. Aristóteles estudou as várias formas de raciocínio e codificou o conjunto de regras que tornam válida uma cadeia de pensamentos. Logo, o que viola essas regras é uma forma inválida, porque ilógica, de pensar. Podemos dizer que Aristóteles criou a primeira máquina (mental) de pensar: basta aplicar as regras para perceber se um raciocínio é válido ou inválido e não se deixar enganar. (Mais tarde, muito mais tarde, alguém irá criar uma máquina física de pensar.)

Sem grande exagero: não há disciplina em que o trabalho de Aristóteles não seja ainda tido em boa conta, porque ele e a escola que ele criou em Atenas, o Liceu, desenvolveram o saber em inúmeras direções.

Aristóteles codificou a explicação do mundo físico em quatro tipos de causa: causa material, causa formal, causa eficiente e causa final. Por exemplo, uma bilha: causa material, o barro de que é feita; causa formal, a forma da bilha; causa eficiente, as mãos do oleiro; causa final, o fim para que foi feita. Foi a primeira gramática do pensamento científico. E assim se passou a fazer ciência. (NB: a partir do Séc. XVII, a ciência ignora as causas formal e final, se assim podemos dizer, e a ciência torna-se uma ciência outra.)

No senso comum intelectual, Aristóteles não goza de boa fama, porque o modelo geocêntrico foi superado por Galileu e a sua física do movimento foi superada por Newton. Mas, entre as pessoas informadas, Aristóteles é considerado como um dos gigantes que deram corpo à ciência e à filosofia dos tempos posteriores. Embora a importância que Aristóteles dava à observação tenha sido depois bastante esquecida a favor da argumentação racional, mais na linha do que Platão defendeu. Já o seu trabalho na área da lógica manteve-se como “a” lógica, a única lógica, até ao século XIX; a sua filosofia é ainda hoje uma das fontes do pensar filosófico produtivo; e o seu foco no mundo das coisas, que importa conhecer de modo racional, está destinado a continuar a merecer muito boa consideração. (Apesar de muitos, hoje, apostarem numa irracionalidade que lhes traga bom proveito. Mas disso Aristóteles não tem culpa.)