Cardus Edição 138, outubro 2024
O Luís Afonso dispensa apresentações. Cartoonista de renome é uma referência nacional nesta área.
Tem rubricas diárias no Público (Bartoon), A Bola (Barba e Cabelo), Jornal de Negócios (SA) e RTP (A Mosca). É autor de Bartoon (1996), Selecção (1996), Bartoon 2 (1998), Bartoon 3 (2000), editados pela Contexto; Bartoon 10 anos (2003), Futebol por Linhas Tortas (2004) e Sociedade Recreativa (2005), editados pelas Publicações D. Quixote; Bartoon 25 (2018), editado pela Arranha-Céus. Em 2012, estreou-se na ficção com O Comboio das Cinco, a que se seguiu O Quadro da Mulher Sentada a Olhar Para o Ar Com Cara de Parva e outras histórias (2016), A Morte de A a Z (2022), editados pela Abysmo, O Chef (2022), editado pela Relógio D’Água, e Mínimos Olímpicos, o seu último livro de cartoons realizado a propósito dos Jogos Olímpicos de 2024. É também autor de uma curta-metragem, Everestalefe (2019).
Alentejano de gema, licenciou-se em Geografia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1988, altura em que se perdeu um promissor professor mas se ganhou um grande artista.
Sem pretensiosismos, vaidades ou presunções, o Luís, continua a fazer o seu dia-a-dia em Serpa, onde reside desde que voltou da capital.
Admiro muito o seu trabalho.
Obrigada Luís pela tua colaboração,
Aline Cardeira
Luís, como é que um geógrafo se emaranha no mundo do cartoon? Podes contar-nos como é que tudo começou?
Acaba por ser um processo paralelo. Quando eu estava na Faculdade de Letras, no primeiro ano de Geografia, tive a oportunidade de publicar num jornal que um colega me indicou (O Diário) uma pequena banda desenhada que tinha feito há tempos, bem antes de ir para Lisboa. Umas semanas depois fui buscar as pranchas originais e nessa altura perguntaram-me lá no jornal se eu não estaria interessado em fazer cartoons. Experimentei e comecei então a fazer um cartoon semanal na edição de fim-de-semana. Desde aí nunca mais parei. Estávamos na Primavera de 1985.
Sabemos que as tuas publicações são diárias e em diversas plataformas, há mais de trinta anos. E também sabemos que nunca falhaste nenhuma. Onde vais buscar tanta criatividade? Como é o teu processo de trabalho no dia a dia?
Por acaso falhei 16 dias em Setembro/Outubro de 2019 porque estive internado, quase a “bater a bota” com uma dissecção da carótida. Mas foram só mesmo esses 16 dias. Depois disso já fui operado a um cancro e fiz os cartoons antes de ir para o bloco operatório e continuei a fazê-los umas horas após acordar da anestesia. Às vezes é nessas situações que é mais fácil fazer os cartoons porque a energia está toda concentrada em aproveitar o tempo disponível. Em dias “normais”, mais relaxado, acontece dispersar-me. Bem, com isto não estou a querer dizer que me dava jeito ser operado todos os dias…
O processo de trabalho é, numa primeira fase, a recolha de informação, e depois trabalho sobre ela, ou seja, vejo o que dá para fazer, como o posso fazer e concretizo a ideia. O desenho vem depois, só “pego nos bonecos” quando tenho a ideia estabilizada na cabeça. Há ainda uma última fase, que é olhar para o cartoon como se não tivesse sido eu a fazê-lo (já tenho muita experiência nisso) e ver se tem pernas para andar ou não. É frequente o cartoon chumbar nesta fase e acabo por ter de fazer outro.
O humor também tem um lado menos sorridente e, muitas vezes, fere susceptibilidades. Como lidas com as consequências de eventuais episódios que sabes poderem dilacerar opiniões, mentalidades e ou até ofender alguém?
Atenção que o cartoon não é necessariamente humor. Há um bocado essa percepção de que cartoon é humor, mas não é. O objectivo de um humorista é fazer rir, o objectivo de um cartoonista é fazer pensar. É muito frequente haver cartoons que são para chocar, para reflectir e que nada têm de humorístico. No meu caso, assumo que a maior parte das vezes tento dar uma graça ao cartoon, mas noutras não o faço. E noutras ainda tento dar graça e não consigo, pronto.
A capacidade dos leitores para pensar e reflectir já teve melhores dias, hoje as pessoas opinam e enfurecem-se lendo apenas os títulos da notícias, não se dão ao trabalho de ler um texto inteiro. E com os cartoons é a mesma coisa, reagem sem pensar, sem tentar perceber o que lá está. Olham para um cartoon como se fosse um daqueles “memes” que circulam na net. E não é, o cartoon tem camadas, não é de consumo instantâneo. De resto, eu tenho uma ética a fazer os cartoons. Recuso-me a ser racista, xenófobo, sexista, explorar a vida privada, gozar com características físicas das pessoas e procuro evitar o mau gosto. Se com isso perdi oportunidades de fazer coisas engraçadíssimas? Claro que perdi, muitíssimas, mas acho que a ética não é descartável. Claro que, mesmo assim, já houve várias situações em que pessoas ficaram ofendidas com os meus cartoons. Se tivesse sido injusto, ter-me-ia arrependido, mas não me parece ter sido o caso em qualquer delas.
Como é que um alentejano de renome e de grande sucesso nunca se mudou para Lisboa e ainda reside em Serpa?
Na verdade, eu vim de Lisboa para Serpa. Sou alentejano, mas de outro Alentejo (Aljustrel). Vivi em Lisboa enquanto estudei na Universidade e vim para Serpa em 1988. Não conhecia a terra. Fui ficando. E, se fiquei quando era difícil enviar os cartoons para Lisboa, agora não há qualquer razão para partir. Para o meu trabalho, estar em Lisboa, Serpa ou Istambul é absolutamente igual. Eu até acho que estar afastado de Lisboa e não conviver de perto com políticos e agentes económicos ou culturais da “capital” só me beneficia. A distância é positiva. E, numa perspectiva global, Serpa é tão periférica quanto Lisboa.