Cardus Edição 137, setembro 2024
António José Velhinho Pereira é meu colega de voluntariado na Associação Ser Mais Valia onde temos participado em vários projetos ligados ao desenvolvimento, o mais representativo dos quais, talvez, a criação de uma plataforma de autoaprendizagem da língua portuguesa, um trabalho criativo, essencialmente a dois, com o António a conceber exercícios inovadores sobre a língua e eu com a tarefa da respetiva materialização digital.
O António é um profissional exigente, em termos de princípios e regras, mas também uma pessoa com uma grande sensibilidade à condição humana e de uma grande solidariedade com o próximo.
Esta entrevista escrita teve como objetivo não só divulgar o trabalho meritório que tem desenvolvido nos PALOP e na língua portuguesa, como também sensibilizar as pessoas, pelo seu exemplo, para essa atividade nobre e estimulante que é o voluntariado.
Foi um prazer, obrigado, António.
Abrasu.
Edmundo Cardeira
António, como e quando é que o voluntariado entrou na tua vida?
A vontade de ser voluntário nos PALOP surgiu um pouco antes de me aposentar. Era professor dos cursos noturnos e, por vezes, também dos cursos técnicos de eletricidade e tinha muitos alunos africanos que fui conhecendo (bem como os respetivos países), sobretudo através das redações. E tudo se concretizou com a criação, pela Fundação Calouste Gulbenkian, do projeto “Mais Valia”, que estava a selecionar voluntários seniores (a partir dos 55 anos).
O teu voluntariado é realizado na área da língua portuguesa, onde desenvolveste um processo próprio de ensino adaptado às condições locais, nomeadamente aos PALOP, a tua área de atuação privilegiada. Podes descrevê-lo na generalidade?
A minha primeira missão, realizada no sul de São Tomé e Príncipe, incidiu sobretudo na língua francesa. O meu trabalho na área da língua portuguesa aprofundou-se na segunda missão, em Bissau, em 2016, com os bolseiros do Instituto Camões. Esse foi o ponto de partida para o investimento na criação de materiais próprios, tendo em conta as necessidades, sobretudo dos formandos guineenses, nomeadamente ao nível das interferências do crioulo guineense. Este trabalho constante com o objetivo de criar condições para o aprofundamento metódico de conhecimentos e competências na escrita e na oralidade, quer na compreensão quer na expressão, tem dois pontos altos: a criação contigo da plataforma online “Português em Ação!” (PEA) e o livro “Visita Guiada ao Interior da Língua Portuguesa – Aprenda você mesmo(a)!” (que também será disponibilizado online), a ser publicado em breve pelo Instituto Camões em Bissau. Tanto a plataforma como o livro têm como objetivo facilitar o acesso à (in)formação e promover as autoaprendizagens de forma universal e gratuita.
Há mais de dez anos que andas por estes caminhos do voluntário, do desenvolvimento e da língua portuguesa. Podes resumir os sucessos e, eventualmente, os insucessos desta tua longa caminhada. Valeu a pena?
Começando pelo fim da tua pergunta, sem dúvida, valeu e vale sempre a pena!
Os aspetos gratificantes do meu trabalho podem resumir-se em três pontos:
Os aspetos menos positivos têm a ver com situações de pobreza e falta de estruturas na assistência médica, o que leva a que muitos formandos tenham problemas complicados de saúde, limitando-lhes a assiduidade e a participação nas atividades.
Na Guiné-Bissau, aos problemas de saúde, junta-se a presença constante da morte que ceifa impiedosamente as vidas de inúmeras pessoas, sobretudo crianças até aos cinco anos, mas também adultos, muitas vezes jovens.
Tento dar conforto e carinho nesses momentos trágicos, mas fico sempre afetado, sobretudo nas duas situações de falecimento de formandos.
Tantos anos de atividade deixam certamente histórias e momentos inesquecíveis. Queres escolher o mais marcante ou o mais representativo e contá-lo para os leitores do jornal?
Há sempre momentos animados nas aulas, pois, além de ser distraído, sou totalmente surdo do ouvido direito, daí advindo alguns equívocos na compreensão do que me dizem, o que muito diverte os alunos. Como tenho o hábito de pôr a mão aberta junto ao ouvido esquerdo, como uma “parabólica caseira”, para ampliar o som, há formandos, também com problemas de audição, que adotam o sistema da “parabólica” do formador.
O momento mais marcante, pela negativa, aconteceu em 2023, em Bissau.
O jovem Alex, que costumo acompanhar, a nível particular, na língua portuguesa, sempre que me desloco à Guiné, veio para uma aula num dia à tarde, às 17h00, no Hotel Coimbra, que costuma oferecer-me a estadia nas minhas missões em Bissau.
Depois de uma caminhada de cerca de duas horas, pois não tinha dinheiro para o transporte, ao chegar, disse-me que estava muito cansado, o que, dadas as circunstâncias, achei normal.
Logo a seguir, encostou-se à parede. Ato contínuo, começou a escorregar e perdeu os sentidos. Em pânico, fui a correr buscar uma toalha húmida e pus-lha à volta da testa. Recobrou a consciência e disse-me para não ficar preocupado, pois só tinha fome. No dia anterior, de manhã, o arroz (base da alimentação dos Guineenses) tinha acabado lá em casa e não tinha voltado a comer desde esse momento. Trouxe-lhe toda a comida que tinha no frigorífico e o meu amigo-aluno comeu tudo avidamente. No fim do “banquete”, o Alex abriu um grande sorriso e disse-me: “Já podemos começar a lição, meu prof.!”
Emocionado, dei-lhe um abraço e iniciámos a aula!
NOTA: Há fome na Guiné-Bissau e são muitos os casos de pessoas que ingerem, na melhor das hipóteses, uma refeição por dia, quase sempre, arroz com um molho tradicional pouco nutritivo.
Oiço, por vezes, dizer que o voluntariado tira empregos. É uma afirmação da qual discordo totalmente, mas gostava de ouvir a tua opinião sobre esta matéria.
Não tenho conhecimento do plano de atividades de outras ONGD, mas, no caso da nossa associação “Ser Mais Valia”, tratando-se de intervenções de curta duração em domínios onde faltam profissionais no terreno, não me parece que essas intervenções retirem empregos.
A percentagem de cidadãos que praticam o voluntariado em Portugal é de 6%, uma das mais baixas na Europa. Por exemplo, nos Estados Unidos, esta percentagem sobe para 39%. Trabalhar “pro bono” parece não atrair muito os portugueses quando podia ser uma maneira de ocupar tempos livres em atividades saudáveis. Falta de informação, cultura, o que é se poderia fazer para melhorar este indicador?
Penso que é sobretudo um problema cultural, o que torna a mudança mais lenta.
Há que insistir na divulgação das organizações que existem e sensibilizar para a ação no terreno.
Embora o ideal seja que a vontade de ajudar o próximo venha do âmago de cada um, talvez um incentivo fiscal, em sede de IRS, pudesse atrair mais pessoas para o voluntariado.