Cardus Edição 136, junho 2024
Mais do que uma entrevista, é uma conversa com o meu amigo João Neto, diretor do belo Museu da Farmácia, que fica perto do Miradouro de Santa Catarina em Lisboa e, também, Presidente da APOM - Associação Portuguesa de Museologia.
António Acciaioli CamposPorque é que existiam poucos museus antes do 25 de Abril e quais os motivos para muitos terem sido inaugurados após a revolução?
Nós vivíamos numa sociedade em que muitas vezes a cultura era vivida por grupos restritos e socialmente privilegiados. Antes tínhamos uma cultura de exclusividade e, o advento do 25 de Abril veio dar uma nova visão sobre o valor do património que então, tanto podia ser exatamente a Custódia de Belém, como poderia ser um objeto que marcasse a identidade duma região, duma vila, duma aldeia. Essa valorização do património, fez abrir a consciência para que as autarquias, as associações, as próprias fundações pudessem valorizar a sua história e o seu património. Considero que um dos grandes valores da democracia e do 25 de Abril, foi essa releitura cultural e a consciência de que todos somos guardiões e respeitadores do legado patrimonial das diversas formas de viver a vida.
Porque é que devemos visitar o Museu da Farmácia e que atividades têm sido desenvolvidas para cativar visitantes?
Uma das estratégias do Museu da Farmácia, que tem mesmo marcado a diferença, têm sido as “visitas temáticas”. A “visita temática” do Sherlock Holmes, da Agatha Christie, tem trazido ao Museu pessoas que, em princípio, não vinham. Mas vou dizer qual é a visita que neste momento me dá um enorme prazer: é a visita sobre cosmética. Porque a maior parte das pessoas que vêm a esta visita trabalham em cabeleireiros, esteticistas, maquilhadoras que nunca tinham pensado que era possível que a sua atividade fosse digna de estar num museu.
Há muitos jovens que visitam o Museu da Farmácia que, como sabemos, viveram a pandemia e neste Museu constatam que já houve outras pandemias, outras máscaras que protegiam as populações e os profissionais de saúde em particular. Como é que eles reagem ao verificarem que no passado já houve situações semelhantes?
Eu não tenho essa ideia. A ideia principal que eles sentem é que houve sempre uma solução. Isso é que os marca, apresar da dor, do sofrimento, da dor e de tudo o que passaram, o que ficou retido é exatamente, que a ciência pode ser um caminho para a solução. Nesse sentido, o museu é também um lugar de esperança onde podem perspetivar o futuro.
A APOM, Associação Portuguesa de Museologia, promove anualmente a edição de Prémios onde são galardoadas pessoas e instituições que se tenham distinguido no ano anterior. Porque é que esta iniciativa é importante para os museus e para os museólogos?
É importante porque cria a união de classe, cria alegria e cria um certo otimismo que as pessoas têm que, também, ter na sua vida profissional. É um momento de encontro, em que apesar de todas as dificuldades que todos nós temos nos museus, a falta de recursos, a suborçamentação, entre outros, compreendemos que ainda é possível continuar a trabalhar para criar alegria nos outros, criar conhecimento, contribuir para a verdadeira cidadania. Aquilo que nós acabamos por fazer é promover o encontro entre pares, através do reconhecimento dos prémios e demonstrar que os nossos colegas e as suas instituições criam futuro.
Como museólogo és um resistente. Como te sentes neste papel?
Feliz e sempre com alento para continuar. É isso que eu sinto todos os dias, uma enorme alegria por sentir que posso estar a fazer a diferença quer junto dos visitantes, mas sobretudo nos meus colegas. Não para eles ficarem com a adoração da personalidade, mas para sentirem que há pessoas dentro da APOM, como eu, que estão a criar, ou que pelo menos tentam criar as condições para que possam encontrar sentido no seu dia a dia profissional e para que o seu quotidiano lhe traga bem-estar. Como tu costumas dizer – os museus e, visitar museus, fazem de facto bem à saúde.
Obrigado, João Neto, por tudo.
António Acciaioli Campos