Cardus Edição 135, julho

ENTREVISTA por

Raul

Laurindo Cardoso vive no Pico, nos Açores. Para além da sua atividade profissional, tem-se dedicado, ao longo da vida, à música, que nos Açores tem sido muito cultivada, tradicionalmente, através das bandas filarmónicas espalhadas por todas as terras. As bandas participam ativamente nas festividades, comemorações e nos momentos marcantes das populações. Com 102 filarmónicas, os Açores são a região com mais bandas, sempre presentes nos desfiles e procissões e que, com as suas escolas de música, têm desempenhado uma forte função cultural e social. Nas minhas idas ao Pico impressionou-me inicialmente o ambiente musical, das bandas aos grupos e, no meio de tanta música, descobri o senhor Laurindo Cardoso, com os seus instrumentos de corda e que procuro acompanhar sempre que se apresenta em público. Vive Na Candelária, no Pico. Para além de assistirmos às suas apresentações públicas, quisemos saber como aconteceram as coisas no campo da música.

Raul Leal Gaião

LAURINDO CARDOSO

Do conjunto de instrumentos de cordas que possuo, fiz dois bandolins, uma viola da terra, uma bandola e três guitarras. Recorrendo a informações técnicas, em livros e revistas que ia adquirindo, com a madeira dos cedros daqui, do Pico, ou aproveitando a madeira que aparece na costa, por vezes dá à costa madeira muito boa, fui experimentando diversos materiais, para ver o efeito sonoro.

Como e onde fez a sua aprendizagem musical, particularmente dos instrumentos de cordas? Na altura não havia nem conservatórios nem escolas de música, certamente.

Na época, havia muitas bandas filarmónicas por todas as ilhas dos Açores e na Candelária existiam duas tunas, a tuna dos Biscoitos e a tuna da Cruz. A aprendizagem fazia-se através das bandas, as bandas eram as escolas de música nos Açores. Com um dos mestres, o mestre da tuna dos Biscoitos, José da Rosa Lemos, aprendi a tocar bandolim e comecei a tocar nesta tuna, depois, a pedido, fiz parte da outra e também do rancho. Posteriormente fui alargando a minha aprendizagem e os conhecimentos para outros instrumentos de corda, nomeadamente viola e guitarra.

Como prosseguiu o seu percurso musical?

Aos 17 anos formei, de acordo com o espírito da época e com o entusiasmo da juventude, um conjunto, os “Apaches”, para tocar nos bailes. Formámos, ao mesmo tempo, um grupo de teatro. Em 1970 constituímos um novo conjunto, “Pedras Negras”, o primeiro grupo no Pico com guitarras elétricas, constituído pelos seguintes elementos: viola solo (tocada por mim), viola ritmo (pelo meu pai), viola baixo, órgão, bateria e vocalista. Há seis anos, já mais recentemente, criámos o duo “Ilha Negra”, em que toco viola da terra, bandolim e guitarras e o outro elemento (José Fontes) toca violão.

Que músicas ou que tipo de músicas apresentam? Onde se costumam apresentar?

Tocávamos músicas tradicionais açorianas, música portuguesa, mais em voga, as músicas que se ouviam na época, e, a partir de uma determinada altura, eu próprio fui compondo. Adquiri alguns conhecimentos sobre escrita musical. Entre um número já bastante alargado, posso dar exemplo de algumas dessas composições: Valsa, Variações, Tango Vadio, Murmúrios, Passo Dobrado, Amanhecer e muitas outras composições. Mesmo as letras de algumas composições são minhas, outras são de letristas amigos. Apresentamo-nos nos Açores, e, embora tenha recebido vários convites para fora, fui sempre recusando, apenas fomos a Toronto a tocar para a comunidade açoriana. Anualmente, realiza-se aqui no Pico, na Madalena, o Festival de Cordas, que já vai no décimo, com artistas nacionais e internacionais e que tem tido sempre a nossa participação.

Nos anos sessenta do século XX, as comunicações nos Açores e com o resto do mundo, eram ainda muito difíceis. Como foi adquirindo os instrumentos musicais e como é que se ia informando musicalmente?

Inicialmente fui comprando os primeiros instrumentos, mas a determinada altura eu próprio os fui construindo. Do conjunto de instrumentos de cordas que possuo, fiz dois bandolins, uma viola da terra, uma bandola e três guitarras. Recorrendo a informações técnicas, em livros e revistas que ia adquirindo, com a madeira dos cedros daqui, do Pico, ou aproveitando a madeira que aparece na costa, por vezes dá à costa madeira muito boa, fui experimentando diversos materiais, para ver o efeito sonoro. Estas minhas experimentações levaram-me a fazer uma guitarra com caixa de plástico. É claro que o resultado foi desastroso como previa, mas quis experimentar e ali está em exposição. A feitura dos instrumentos aqui é um pouco complicada, pois as condições do tempo não são muito propícias, devido à forte humidade. Quando está muito húmido, não trabalho, pois exige-se tempo seco.

Que outras atividades foi desenvolvendo ao longo da vida?

Para além da minha atividade profissional, passando por vários tipos de atividade, aos 32 anos dediquei-me ao hóquei. Como sabe, a Candelária tem uma excelente equipa que pertence presentemente à primeira divisão portuguesa. Com essa idade, durante alguns anos, fui treinador e monitor da equipa de hóquei da Candelária e da seleção do Pico.

Muito obrigado Sr. Laurindo. Foi um prazer ouvi-lo falar com tanto entusiasmo da sua vida musical.

Raul Leal Gaião