Cardus Edição 133, maio 2024
Mais do que uma entrevista é uma conversa entre amigos e vizinhos. José Antunes Ribeiro é um homem extraordinário que sempre esteve ligado a atividades culturais e aos livros em particular.
Conjuntamente com a sua mulher, a minha amiga e saudosa Lúcia, abriu a livraria ULMEIRO em 1969, um espaço de liberdade e de resistência à ditadura, mas que, por razões económicas, foi encerrado em 2016.
Com a preciosa ajuda da Junta de Freguesia de Benfica foi possível reabrir o Espaço Cultural ULMEIRO na Avenida do Uruguai em Benfica a poucos metros das antigas instalações.
É uma boa razão para uma conversa com o Zé Ribeiro.
Procurei sempre, enquanto homem ligado aos livros, contribuir de alguma forma para que eles estivessem mais ao alcance das pessoas. Daí a necessidade de fazer coisas fora da livraria … espaços onde os livros pudessem ir
A ULMEIRO foi fundada em 1969 ainda no tempo da ditadura. Na altura imaginavas que serias perseguido pela PIDE, terias livros apreendidos e serias mesmo preso. Como resististe?
Eu penso que está também na nossa natureza a capacidade de resistir. Eu já sabia ao que ia porque participava ativamente nas cooperativas culturais que vieram a ser encerradas em março de 1971 no consulado de Marcello Caetano. Eu também já tinha outros projetos livreiros e editoriais que tinha ajudado a fundar. Na Amadora, a Livraria Obelisco, na cooperativa cultural Avis onde exerci funções na direção e também nas edições do ITAU. Houve muitas apreensões sobretudo em posters e livros. Portanto… já estava habituado e não foi nenhuma surpresa a perseguição exercida pela polícia política. Eu já sabia ao que vinha.
A ULMEIRO foi sempre um espaço cultural. Como teu vizinho parecia-me que, mesmo assim, havia um divórcio entre a ULMEIRO e a comunidade do bairro de Benfica. Lembro-me de um dia em que uma mãe entrou na ULMEIRO para comprar um livro de poesia para a filha: era um livro obrigatório no plano escolar, mas quando viu a dimensão e o preço disse à Lúcia que se soubesse tinha mandado fazer fotocópias. Qual a tua opinião?
Temos que ser verdadeiros. Os índices de leitura em Portugal nunca foram como em outros países europeus. Nós tínhamos um grau baixo de literacia, e se calhar ainda hoje temos, embora de formas diferentes. A ULMEIRO era uma livraria de bairro, fazíamos atividades para o bairro, tínhamos clientes do bairro, mas tínhamos sobretudo clientes que vinham de outras zonas de Lisboa. Portanto creio que o divórcio com a leitura continua a existir nos dias de hoje. Uma vez numa sessão no Museu da República e Resistência, que ficava perto do Arco do Cego, apareceu um senhor que disse uma coisa muito curiosa: felicitava a ULMEIRO porque o obrigava, depois do jantar, a sair de casa para ver a montra da livraria, mas nunca tinha entrado na livraria nem nunca tinha comprado um único livro…
Então confirma-se que havia um divórcio, havia obstáculos…
Claro que havia obstáculos.
Lembro-me que um dia, nas antigas instalações da ULMEIRO, sugeri que colocassem livros numa mesinha no exterior da livraria. Havia o risco que alguns poderiam ser roubados? Claro que sim mas, como aspeto positivo, os livros com preços reduzidos serviam como incentivo à leitura ou à entrada na Livraria. Era importante que os livros “saíssem das instalações”. Essa pequena iniciativa manteve-se ao longo dos anos e algumas pessoas após verem os livros entravam nas instalações…
É verdade… e havia pessoas que, talvez pelos preços acessíveis entravam na livraria e compravam. Havia muita coisa para fazer… há muita coisa para fazer.
Os portugueses leem pouco. Apontamos a responsabilidade a todos: à família, à escola, ao governo, à comunicação social, aos editores. Qual é a tua responsabilidade e como podes contribuir para alterar este estado de situação?
Eu assumo essa responsabilidade. Procurei sempre, enquanto homem ligado aos livros, contribuir de alguma forma para que eles estivessem mais ao alcance das pessoas. Daí a necessidade de fazer coisas fora da livraria … espaços onde os livros pudessem ir. Recordo-me, por exemplo, de levarmos livros ao mercado do peixe em Alvaiázere. Continuo a pensar que este tipo de atividades são importantes para as pessoas … é importante que os livros apareçam à frente das pessoas. As que leem habitualmente não precisam de esbarrar com os livros, de os encontrar. Sabem o que procuram e vão à livraria. Mas, para a esmagadora maioria das pessoas, o livro é um objeto de um outro planeta. É uma coisa praticamente em extinção e não sei se a escola tem contribuído …
A responsabilidade é de todos. Mas pergunto qual “a tua responsabilidade”?
A minha responsabilidade é enorme. Consegui fazer sempre algumas coisas, mas gostaria de fazer muitas mais. A única coisa que acho é que não desisto, nem desistirei, e procurarei sempre colocar o que sei e o que posso para que mais pessoas possam ler.
Tenho na minha casa livros que não li, nem quero ler, porque não gosto do escritor ou que não me motiva curiosidade. No entanto, sou incapaz de os deitar fora, de os vender, de os colocar num caixote do lixo… pois fazem parte da minha história. Como é que tu reagias às pessoas que chegavam à ULMEIRO e que diziam “estão aqui livros que não quero”?
Temos que compreender que as casas passaram a ser cada vez mais pequenas, o espaço condiciona também a questão do livro. Os livros pesam muito. Comigo aconteceu pensar que tinha livros demais em casa. Fiz uma pequena seleção e levei alguns para a livraria. Mais tarde ao encontrar um livro na ULMEIRO dizia: “não pode ser… este livro é meu… volta para casa”. Acho que há uma relação que criamos com o livro que também é física. Os livros fazem parte, de alguma forma, daquilo que nós somos e da própria casa…
Uma vez encontrei uma mala enorme com documentos. A minha surpresa foi enorme pois estava lá praticamente toda a documentação que um estudante tinha guardado relacionada com as crises académicas de 1962 e 1969. Continha comunicados, apontamentos escritos à mão das reuniões da RIA (Reunião Inter-Associações), etc. Mais tarde ofereci essa documentação ao EPHEMERA (Associação Cultural Ephemera – Biblioteca de Pacheco Pereira).
A reabertura da nova ULMEIRO é uma boa notícia. Que atividades culturais serão desenvolvidas neste espaço para cativar os teus vizinhos para o prazer da leitura?
Nós estamos abertos um pouco a tudo, às atividades que possam contribuir para o aumento do interesse pelo livro e pela leitura. Haverá apresentações de livros e, também, exposições de pintura. Neste mês de abril será inaugurada uma exposição do mesmo artista que há vários anos inaugurou a Galeria da antiga ULMEIRO.
Sinto muitas vezes que este tipo de atividades é feito para públicos que já estão cativados para a leitura e para frequência destes espaços culturais. A pergunta é: como se cativa novos públicos nomeadamente da vizinhança da ULMEIRO?
Acho que passa muito pelas pessoas que entram na livraria... e das que entram há as que já são leitores e os outros por curiosidade. Acho que é excelente se, de vez em quando, uma pessoa que não leia comece a ler, porque não é fácil cativar pessoas que não estão habituadas a ler.
Vou acabar a entrevista dando uma sugestão: Há uns anos sugeri que a ULMEIRO colocasse uma mesinha com livros no exterior da livraria. Hoje, neste novo espaço, existe uma espécie de esplanada. Proponho que, na primavera ou no verão, coloquem em vez de uma mesinha uma estante com muitos livros onde as pessoas possam escolher uma obra e sentarem-se nas cadeiras existentes para a apreciar. Depois optando por… entram na livraria. Fomentamos a curiosidade e o prazer da descoberta…
É uma excelente ideia até porque a esplanada que referes vai ter o nome de um grande poeta português, Ruy Belo. É um dos nomes que falha no Passeio ULMEIRO (onde estão representadas personalidades da cultura que fazem parte da história desta livraria). As outras salas também terão nomes de pessoas ligadas à cultura. A sala de entrada terá o nome de Eugénio de Andrade com um poema que ele me enviou, na cave uma das salas terá o nome do poeta António Salvado, falecido recentemente, e a outra o nome da escritora Noémia Seixas.
Obrigado Zé Ribeiro pela tua paixão, pelos livros e por tudo.
António Acciaioli Campos